25 anos sem John Ford
PUBLICAÇÃO
domingo, 30 de agosto de 1998
César Almeida Agência Estado 
ReproduçãoJohn Ford: ninguém como ele soube retratar o inóspito Velho Oeste americanoQuando a lenda supera a realidade, publicamos a lenda. A frase, do jornalista interpretado por James Stewart no filme O Homem Que Matou o Facínora (The Man Who Shot Liberty Valance), de 1962, tornou-se um ponto de referência para a inclusão de John Ford na lista dos mestres da linguagem cinematográfica. O personagem do filme em questão, estrelado também por John Wayne, justificava, assim, a versão épica e lírica de uma história sem heróis e sem atos de heroísmo, publicada pelo jornal. Para certos críticos, num tempo em que a imagem e a ação valiam mais do que as palavras e a reflexão, a frase soou como algo paradoxal, mas define o essencial dos filmes de Ford, que morreu há exatos 25 anos - no dia 31 de agosto de 1973.
Ford era considerado o melhor diretor de cinema dos Estados Unidos pela Rádio do Vaticano, que assim se manifestou a respeito de sua morte: Nesta época em que o cinema é lamentavelmente utilizado quase sempre com fins de baixa especulação econômica, sem nenhum respeito pela dignidade do homem ou por seus valores, mesmo os mais sagrados, a recordação de John Ford, poeta da câmera, realizador apaixonado dos mais nobres sentimentos, é um exemplo.
Embora seja considerado o pioneiro dos filmes de faroeste, ele fez poucas produções desse gênero. Os mais belos filmes que rodei não são westerns, afirmou, numa de suas últimas entrevistas. São pequenas histórias sem grandes estrelas, sobre comunidades de gente muito simples.
A história de John Ford começou no mesmo ano que a do cinema. Sean Aloysius OFienne nasceu no dia 1 de fevereiro de 1895, em Portland, Maine, era filho de irlandeses e fez mais de 150 filmes, 61 deles mudos, sobre os mais variados gêneros. Ele começou a carreira em 1914, influenciado pelo irmão Francis, que era escritor e ator em Hollywood. Era um velho republicano liberal, mais chegado à simplicidade, ao rigor e à coerência.
Se seus filmes eram muitas vezes geniais, é porque tinham invariavelmente um grande amor pelas coisas mais simples, afirma o crítico Paulo Perdigão, para quem Ford foi, talvez, o primeiro e o maior dramaturgo da história americana. Conferiu às imagens ásperas dos cowboys e das planícies livres do Oeste uma solenidade de classicismo, fazendo dessas aventuras viris e líricas uma metáfora estranha e fascinante da existência humana.
Ford era avesso a elogios, mas não conseguiu disfarçar a emoção quando soube das palavras de outro gênio do cinema, Sergei Eisentein, publicadas na revista russa Positif e reproduzidas no livro John Ford, de Peter Bogdanovich: Se uma fada passasse por mim e me dissesse: Sergei Mikailovitch, nada tenho a fazer neste momento. Quer que lhe faça uma pequena mágica? Desejaria que o tornasse, num passe de mágica, autor de quaisquer filmes americanos realizados até agora? - eu não apenas consentiria como nomearia logo o filme do qual desejaria ter sido autor. Young Mr. Lincoln (A Mocidade de Lincoln), de John Ford.


