234 breves histórias
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 11 de abril de 1997
Luiz Claudio Oliveira Sucursal de Curitiba 
George GroszNo oco da noite sou o caruncho que rói a bolinha perfeita do sono perdidoEstá chegando às livrarias o novo livro de Dalton Trevisan. Fosse este um país um pouco mais educado, a frase anterior funcionaria como turbina de propulsão para uma corrida às lojas. Infelizmente não é assim. Felizmente, a literatura de Dalton Trevisan está mais viva que nunca.
O livro, lançado mais uma vez pela editora Record, é chamado simplesmente de 234 porque traz exatamente 234 contos - ou mini-contos, como os críticos já se referem à literatura instantânea, econômica, telegráfica do autor de Cemitério de Elefantes, Dinorá, A Polaquinha e A Trombeta do Anjo Vingador, entre outras duas dezenas de títulos.
Desta vez, o livro não traz ilustrações de Poty, mas há semelhanças nos traços do mestre paranaense com os do inglês George Grosz. Este chega a ser mais cru e mais cruel, exatamente como está a literatura de Trevisan, que não perde tempo com explicações.
Os contos trazem ação pura, mas na maioria das vezes, do ponto de vista interior. São as pessoas refletindo ou simplesmente lembrando seus atos. Sem remorsos, sentimento de culpa, apenas um relato direto sobre eles.
Em seu estilo cada vez mais conciso, o escritor lança mão de um recurso que além de manter a brevidade do texto de cada conto, permite ao leitor continuar a história em outro conto. São exemplos disso, logo no começo do livro, as histórias de números 2, 4 e 6, em que um azarado relata seu infortúnio. Qualquer uma das historietas pode ser lida isoladamente, mas também podem ser lidas em sequência e se completar.
São vários que repetem essa fórmula e estão sempre intercalados por textos que de tão curtos chegam a ser lacônicos. Em alguns destes curtinhos, situações são repetidas mudando-se ou um personagem ou um objeto, quase como se fosse um exercício de prática literária, só que feito por um mestre. Veja um exemplo na sequência de histórias que recebem os número 1, 3 e 5.
Conto 1 : O nenê chora e a mãe liga o rádio bem alto./ - Qual dos dois cansa primeiro?. Conto 3: O marido com dores e a mulher liga o rádio a todo volume./ - Quero ver quem grita mais alto. Conto 5 : A velhinha geme e o velho liga o rádio bem alto./ - Se é o fim, desgracida, rebenta de uma vez.
Em outras participações, Dalton revela-se aforista, com máximas que deveriam corar os mestres da auto-ajuda: Ah, se o peixe gritasse, quem se atreveria a pescar?. Ou: No mundo de cabotinos um toque de modéstia é a gota de sangue na gema do ovo.
HaicaisOutros são de uma poética pura, quase ingênua, haicais em prosa à maneira do criador do Vampiro de Curitiba: Os pés descalços do vento estalam nas folhas secas da laranjeira; Saudade. O aperto de mão de uma sombra na parede; Na vidraça o arrepio do papel celofane amassado. É a chuva; Ofuscada pelo sol, a borboleta branca bate as pálpebras; A chuva se derrama pelo chão, contas brancas de colar espirrando por todo lado.
Em outras viagens, o escritor se torna cruel como a vida: Jurava se vingar da raça maldita do genro. E só matou a netinha de tanto escondia o chinelo dele, que era um velho. Ou: Nunca me senti tão só, querida, como na tua companhia. Ou ainda: Entro na sauna gay. É tudo embaçado. Numa tarde transo com nove, sem ver a cara de nenhum.
CuritibaOutro capítulo à parte é a relação de amor-ódio que o mais conhecido escritor de Curitiba mantém com sua cidade. Por todo o livro pipocam pensamentos e frases quase nunca elogiosas a respeito da urbe. Curitiba é uma boa cidade se você for o palavrão berrado em todas as bocas; Curitiba: ó araponga louca da meia-noite replicando os sinos da minha eterna insônia; Memorial de Curitiba: a nossa Capela Sistina ao merdoso kitsch.
E tem mais a respeito da cidade: Curitiba é uma boa cidade se você for a pedra solta na rua, o galho seco de árvore, a pena de pardal soprada ao vento; Em cada esquina de Curitiba, um Raskolnikov te saúda, a mão na machadinha sob o paletó; Dá uivos, ó Rua 15. Berra, ó Ponte Preta. Uma espiga de milho debulhada é Curitiba: sabugo estéril.
Bom HumorComo se pode ver, até na indignação, Dalton Trevisan mantém o bom humor. Essa é uma virtude que acompanha o escritor desde seus primeiros trabalhos, mas está cada vez melhor. Qual epopéia de altíssimo poeta se compara ao único versinho da primeira namorada: - Que duuro, João!; Dos teus anos perdidos de escola a única lição para sempre são os joelhos da professora; - Sabe que tem uma delas trabalhando com a gente?/ - Puxa, não me diga. Uma lésbica entre nós? Conta. Quem é?/ - Só te conto se me der um beijinho na boca.
Em outros momentos, o escritor fala de sua já famosa e até cultuada insônia: No oco da noite sou o caruncho que rói a bolinha perfeita do sono perdido. Inclui o seu cachorro Topinho, que já apareceu em outros livros: Ele abre o portão. A paz familiar de cocô do Topinho na grama do jardim. E capricha nas mais dúbias metáforas: Amor, o ingênuo menino que afaga uma cadela raivosa. Ai, não, é mordido. E condenado a viver babando, rangendo os dentes, ganindo para uma lua de sangue.
Se o leitor chegou até aqui, pode contar. Foram reproduzidos nos parágrafos acima apenas 10% do total de contos que você pode encontrar no livro. Mais de 200 não estão aqui e são tão bons ou melhores do que os que estão. Então só resta ir até a livraria de sua preferência e fazer a encomenda.


