Adria­na Ito
Re­por­ta­gem Lo­cal
Um dos eventos que vai marcar este ano literário será a lembrança dos 100 anos de morte de Euclides da Cunha (1866-1909), autor do clássico ‘‘Os Sertões’’. A data exata é 15 de agosto, quando o escritor, sociólogo, repórter do jornal ‘‘O Estado de S. Paulo’’, historiador e engenheiro foi morto pelo jovem tenente Dilermando de Assis - Euclides chegou armado à casa do militar disposto a matar ou morrer em nome da honra, uma vez que sua mulher, Ana de Assis, abandonara-o pelo tenente. Campeão de tiro, Assis, no entanto, alvejou-o primeiro.
  O escritor será o principal homenageado em 2009 pela Academia Brasileira de Letras, como anunciou o presidente da entidade, Cícero Sandroni. ‘‘Vamos montar o que pretendemos que venha a ser a maior exposição em torno de sua obra monumental, Euclides Vive!’’, disse. ‘‘Também organizaremos ciclos de palestras, edições e visitas guiadas, a fim de exaltar um intelectual cujo livro principal (’Os Sertões’) representa um marco na vida mental do Brasil.’’
  O sertanejo continua sendo um forte, mais de cem anos depois de Euclides da Cunha anunciar sua descoberta ao Brasil. A obra mais conhecida do autor, Os Sertões, entrou para a história ao inovar não só na forma de sua narrativa (comparada aos livros-reportagem e ensaios), mas principalmente ao retratar em livro uma realidade até então ignorada pela literatura (e pelos intelectuais em geral): a existência de um Brasil miserável no sertão nordestino, completamente oposto ao ideal de aproximação com a Europa que vigorava até então.
  Dividido em três partes (A Terra, O Homem e A Luta), o livro faz um diagnóstico do subdesenvolvimento dessa região brasileira, relacionando o problema da seca à formação do sertanejo, a miscigenação das raças (brancos, negros e principalmente indígenas) à adaptação ao clima e todos esses elementos – aliados ao fanatismo religioso – à resistência desse povo, que assombrou o País no episódio de Canudos e suas mais de 20 mil mortes. Essa análise faz com que Os Sertões seja considerado ainda um marco na formação das Ciências Sociais no Brasil.
  Se a realidade sócio-cultural do sertão nordestino não mudou muito nos últimos cem anos (o livro é de 1902), a forma de olhar para essa região nunca mais foi a mesma depois da obra de Euclides da Cunha. ‘‘Os Sertões colocou o Nordeste brasileiro no mapa’’, comenta a professora de literatura brasileira Regina Helena Machado Aquino Corrêa, que considera essa obra de Euclides essencial para quem quer estudar a raça e a cultura nordestinas.
  A professora lembra que Euclides foi cobrir a guerra como jornalista, mas também era engenheiro e militar. ‘‘A descrição da terra e do homem que ele faz tem tons meio jornalísticos, meio poéticos, mas mostra muito do engenheiro que era e das teorias de miscigenação que o influenciaram’’, observa.
  Para o também professor de literatura brasileira Alamir Aquino Corrêa, o livro mudou a compreensão que se tinha do País. ‘‘Ele vai buscar a partir da percepção do local uma compreensão do que o Estado estava fazendo’’, explica, acrescentando que, ao final da obra, o autor afirma que Canudos não teria existido se tivesse havido mais escola e religião no sertão. ‘‘Ele denuncia a questão do Nordeste, que continua extremamente atual. Além disso, hoje, a ansiedade por auto-ajuda, a idéia de falência do Estado e a falta de consciência política, inclusive em Londrina, são exemplos de como a obra de Euclides da Cunha continua extremamente atual’’, reflete.
(Com informações da Agência Estado)

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