2003- O ANO DO BLUES - O bluesman solitário
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 04 de setembro de 2003
Kiko Jozzolino<br> Especial para a Folha2 
A vida de muitos cantores de blues mostra as cicatrizes da indiferença, da opressão e do racismo. A Atmosfera que cercou Sam Lightnin' Hopkins, um dos últimos bluesmen lendários do Texas não foi muito diferente. Os tornozelos de Lightnin' Hopkins exibiam as cicatrizes reais dos grilhões das penitenciárias rurais.
Sam nasceu em 1912 em Centerville, Texas, Estados Unidos e desde menino aprendeu a apunhalar o violão. Tinha apenas 8 anos quando a família pegou a velha camionete e partiu para a estrada US75, até Buffalo, Texas, onde havia um piquenique da igreja batista. Era um domingo quente e de repente Sam acordou para uma experiência transcendental: num palanque, um homem gordo e cego fazia coisas infernais com a voz e o violão. Era Blind Lemon Jefferson, com quem Sam passou a tarde colado e, finalmente, criou coragem para tocar com ele. Lemon virou-se e berrou: ''Garoto, toque, mas toque direito!'' Quando percebeu que era apenas uma criança, Blind Lemon deu-lhe umas lições de graça, que Sam guardou para o resto da vida.
Suas influências foram Blind Lemon e um primo, Texas Alexander, e, de certa forma, estas influências o acompanharam para o resto da vida. Na Depressão, durante os anos 30, se viu de volta a Centerville e fez o pior que podia fazer: casou. Largou o violão e sacrificou as mãos nas máquinas de lavoura e nas cordas de puxar mulas, guardando cicatrizes para o resto da vida. A certa altura foi trabalhar como meeiro de um latifundiário chamado Tom Moore. Como um bom cantor de blues e comentarista social, relatou esta experiência em Tim Moore's Farm: (''Sabe, recebi um telegrama esta manhã/ Dizendo sua mulher morreu/ Mostrei ao Sr. Moore, ele disse/ Vá em frente, negro você tem que arar um sulco/ Aquele branco falou que está chovendo/ Sim, senhor, estou atrasado. /Posso deixar você enterrar aquela mulher / Na sua hora de jantar'').
Sam cantava há vários anos e tinha um certo prestígio na região de Houston. Um amigo da família,finalmente o convenceu a dedicar-se totalmente à música. No final de 1946 foi para Hollywood e gravou pelo selo Aladdin. Como em Los Angeles havia poucos empregos, em 47 ele estava de volta a Houston e chegou a se apresentar nas esquinas, quando um dia estava cantando para crianças, um olheiro o viu e gostou.
Encaminhou-o para a gravadora Gold Star e seu primeiro disco superou as expectativas: sem publicidade, o disco vendeu 50 mil cópias. O homem do blues não estava acostumado a ganhar dinheiro, gastava tudo com os amigos bebendo e voltava sempre pedindo mais ao seu empresário. Este fez um acerto para que seu dinheiro fosse direto para sua mulher que sabia controlar melhor os gastos. Em 48 Lightnin' Hopkins foi para Nova York e gravou 18 canções, até hoje inéditas, para outro selo. Muitas eram cópias do que já havia feito para a Gold Start. Quando Quinn, seu empresário soube, o demitiu imediatamente.
A essa altura Lightnin era um dos últimos ''originais'' do blues. Enquanto a maioria dos seus contemporâneos havia aderido às bandas com guitarra elétrica, ele insistia em cantar acompanhado apenas do seu violão acústico. Foi um dos primeiros cantores de blues a se apresentar durante dez anos sem mais ninguém, só sua voz seu violão.
Na década de 50, espremido entre o rhythm & blues e o rock'n'roll, Lightnin' que não sentia atração por nenhum dos dois, viu seu espaço diminuído. Ganhava bem com direitos autorais, mas não se dava bem nas apresentações ao vivo.
Ele refugou outra chance importante. Em 1964, ofereceram-lhe US$ 2 mil por uma semana em uma turnê européia, mas ele se recusou entrar num avião e preferiu tocar em Houston por US$ 17 a noite, em cervejarias, salões de sinucas e churrascarias. Além do mais não tirava seu sustendo da música e sim do jogo. Em 77 foi à Europa mas por pouco tempo. Houston era o seu país e ele voltou, e ficou tocando por um punhado de dólares, em hotéis de terceira e gravando a troco de bebida.
Na sua melhor fase, gravou mais que qualquer outro artista do Blues Clássico, entre elas ''Short Haired Woman'', ''Baby Please Don't Go'', ''Katie May''.
Morreu em 30 de janeiro de 1982, de câncer, em Houston, Texas.
Para saber sua importância basta ouvir uma de suas músicas e sentir o talento único deste individualista do blues.
Kiko Jozzolino é guitarrista de blues e autor do projeto ''Popularização do Blues'' aprovado pelo Promic
kikojozzolino @folhaweb.com.br


