Desde antes da Guerra de Secessão, numerosos negros haviam fugido à escravidão para encontrar refúgio no Norte junto a organizações abolicionistas. A partir de 1875 e da implantação da segregação nos estados do Sul, esse movimento migratório foi tomando amplitude. A Maxon-Dixon Line marcava a fronteira entre os Estados de legislações racistas e os outros, fazia uma reprodução do corte em dois dos Estados Unidos, sendo que a velha Confederação aplicava integralmente a segregação. Move on up the line atravessar a linha tornou-se sonho de muitos jovens negros, que pôde concretizar-se ainda melhor, dado que o desenvolvimento da indústria no Norte era ávido por mão-de-obra dócil e barata, que era encontrada entre os migrantes negros sedentos de liberdade.
O rápido desenvolvimento do mercado de gramofones portáteis e, portanto, do mercado de discos, imediatamente após a Primeira Guerra Mundial, levou as companhias de discos americanas Victor, Decca, Columbia, Paramount e Okeh, que possuiam estúdios em algumas cidades grandes do Norte, a tentar ampliar sua produção, até então reservada aos amadores de música clássica popular.
Chicago e especialmente o bairro negro de Nova York, o Harlem, já contavam com uma importante população negra no início do século, engrossada ainda pela economia de guerra. Algumas famílias, as vezes aí instaladas há muito tempo, formaram uma pequena burguesia local que frequentava assiduamente os cabarés do Harlem, onde se destilava, noite após noite, um blues, nostalgia do Sul, tocado ou cantado em um contexto de jazz, uma afirmação de sua urbanidade.
O diretor de orquestra negro Perry Bradford, certo de encontrar público local para discos desse gênero, conseguiu vencer as reticências (gravar com um artista negro) do produtor de discos Okeh Fred Hager, e uma cantora local popular, Mamie Smith, entrava nos estúdios nova-iorquinos, em 1920, para gravar.
Crazy blues, gravado nesse dia, não somente teve um sucesso enorme em Nova York como, para a surpresa de Hager e de Bradford, também e principalmente entre os negros do Sul, cujos gramofones comprados por correspondência esperavam desesperadamente um disco que fosse próximo, de uma forma ou de outra, de sua música habitual o blues.
Como Crazy blues vendia 75 mil exemplares por semana, Mamie Smith voltou três vezes aos estúdios nova-iorquinos durante o último trimestre de 1920 então tornou-se uma vedete do disco e foi chamada de ''Imperatriz do Blues''. Rapidamente, outras companhias perceberam a importância do mercado assim revelado e gravaram, em uma cadência contínua, cantoras negras cercadas de orquestras de jazz. Os críticos da época lhes deram o nome de ''cantoras de blues clássico'', classic blues singers.
Essa onda de discos que tinha como destinatário o público negro do Sul foi rapidamente canalizada em series especiais reservadas à música negra, em primeiro lugar fugidiamente chamadas black records e, depois, por eufemismo, race records. Esses discos dirigidos aos negros eram vendidos por intermédio dos General Stores, bazares dos pequenos vilarejos do Sul, mas também e principalmente por correspondência. Estes catálogos representam hoje em dia o deleite dos colecionadores.
A partir de 1922, todas as companhias de discos tiveram, assim, suas race series, cujas importantes vendas os levaram a procurar novos interpretes voltados para o público negro.
Essas cantoras, apesar de provenientes de regiões de camadas sociais diferentes bem do Sul ou das grandes metrópoles do Norte, miseráveis meeiras ou proprietárias de cabarés, tinham todas em geral, aprendido canto e representação em turnês de Vaudeville, que eram comédias musicais, espetáculos ambulantes do começo do século que percorriam os Estados Unidos durante o ano inteiro, erguendo sua barraca no meio de pequenos vilarejos ou das grandes cidades. Esses tent-shows apresentavam, entre duas vendas de remédios miraculosos, algumas peças jocosas do teatro espanhol, números circenses, canções e no fim da noite, blues ''profundos e dilacerantes'', que arrancavam lágrimas da assistência. Essas partes cantadas eram atributo de cantoras, pois a voz feminina era vivenciada como mais emocionante.
Desta maneira é paradoxal que essas cantoras de blues clássico tenham aberto caminho para a gravação do blues, pois não representavam realmente o que era o blues tocado e cantado em toda a parte entre populações negras do sul. Para elas, o blues era uma possibilidade entre outras, e numerosas foram as que, arrancadas pelos discos aos tent-shows, fizeram carreira no teatro ou no cinema mudo. Suas vidas, aliás, eram as das estrelas das telas: gênero suntuoso, vida sentimental movimentada e, também em geral, o esquecimento do público depois da recessão de 1929, com um fim miserável e com exceção das melhores dentre elas, suas obras ressentiram-se ao tempo, parecendo hoje em dia ultrapassadas e fúteis.

Kiko Jozzolino é guitarrista de blues e autor do projeto ''Popularização do Blues'' aprovado pelo Promic.
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