William Lee Conley Broonzy, mais conhecido como Big Bill Broonzy, nasceu em Scott, Mississipi, em 1893, em meio de 16 irmãos, numa vida dura. Ainda garoto no Arkansas, para onde a família se mudou, fez um violino de uma caixa de charutos e com um amigo que brincava com uma guitarra de fabricação doméstica, começou a tocar em festas e piqueniques.
Em 1915, aos dezoito anos, já casado, Broonzy cuidava de sua própria fazenda e decidira renunciar ao violino e tornar-se pastor. Todavia ofereceram-lhe US$ 50 e um violino por quatro dias de música. Sua mulher pegou com o dinheiro, para que ele tivesse que tocar. A seca de 1916 acabou com a colheita e junto também seu gado e todas suas economias. Ele então foi trabalhar nas minas de carvão, até que o Tio Sam o pegou em 1917. Passou dois anos no exército, e em 1920 foi para Chicago onde conseguiu um emprego na companhia de vagões Pullman. Mas o vírus da música não o largava.
Broonzy tinha outras ambições, dizia que não podia mudar a cor de sua pele, mas viera ao norte para ter tudo que um homem branco tinha: roupas elegantes, carrões e uma mulher branca. Ele tomou suas primeiras lições com Papa Charlie Jackson, num violão-banjo de seis cordas. Suas primeiras gravações foram frustradas e o produtor Mayo Williams rejeitou seu primeiro teste. No segundo ele compareceu com um amigo, John Thomas, os dois caindo de bêbados. Meses depois o próprio Mayo Willians aprovou a dupla intitulada de Big Bill & Thomas e seu primeiro disco saiu em 1927.
Foi um início tardio pois Broonzy gravou seu primeiro disco aos 34 anos e não foi um sucesso. Outras gravações seguiram, e pouca gente tomou conhecimento, até que em 1934, gravando para a Bluebird (subsidiaria da RCA), tudo mudou e Big Bill começou a fazer sucesso. Começou a usar acompanhamento de piano, sax e trompete, finalmente tinha encontrado seu estilo, fazia um blues ritmicamente esperto, percussor do rock'n'roll dos anos 50.
O blues de Big Bill, com um pé fincado na lama do Mississipi, apóia-se no rural para se projetar no urbano e no futuro. No fim dos anos 30 ele adota uma guitarra elétrica. Em 37 ele gravava com bateria e junto com seu amigo Tampa Red, torna-se um pioneiro da guitarra elétrica. Embora os temas tivessem sempre uma inspiração rural, o som e a instrumentação antecipavam o rhythm & blues dos anos 40, que desembocaria no rock'n'roll dos anos 50.
Em seus melhores anos de atividade Broonzy assinou mais de 300 blues e seu nome já estava espalhado pelo país. Em 39 participou do concerto ''Spirituals to Swing'', no Carnigie Hall em NY, promovido por John Hammond; também participou de concertos na França e iniciou a pratica de turnês européias quase todo ano, passando pela Bélgica e a Inglaterra.
Em Londres, em 1955, publicou sua autobiografia, Big Bill's Blues, mas o mundo estava mudando e os jovens músicos negros começavam a contestar a arte de Big Bill. Ele estava no auge da forma e da fama, quando a voz começou a ratear, sentia problemas de rouquidão quando os médicos lhe deram o diagnostico cruel: câncer de garganta. Uma operação para remover o tumor o deixou sem voz. Broonzy morreu numa ambulância que o levava para um hospital em Chicago em agosto de 1958. Houve vários concertos e homenagens, muitos escritores e oradores louvaram o seu talento.
Mas seu necrológio já havia sido publicado, três anos antes, no seu livro e em suas próprias palavras:''... quando escreverem sobre mim, por favor não digam que sou um músico de Jazz. Não digam que sou um músico, ou um guitarrista, escrevam apenas que Big Bill foi conhecido cantor e tocador de blues e que gravou mais 260 blues e canções de 1925 até 1952; foi um homem feliz quando estava bêbado e brincando com mulheres; foi apreciado por todos os cantores de blues, alguns ficavam um pouco enciumados ás vezes, mas Big Bill comprava uma garrafa de uísque e todos começavam a rir e tocar de novo. Big Bill acabava ficando bêbado e saía de fino da festa e ia para a casa dormir...''

Kiko Jozzolino é guitarrista de blues e autor do projeto ''Popularização do Blues'', aprovado pelo Promic
kikojozzolino@ folhaweb.com.br

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