Nascido em Mooringsport, Lousiana, em 1889, na aurora do blues, filho de um negro e de uma índia mestiça Leadbelly foi uma espécie de François Villon do blues. Como o poeta francês do século XV, Leadbelly foi acusado de homicídio e passou alguns anos na prisão. Mas ele soube transcender a marginalidade, graças à sua arte. Não foi apenas um cantor e compositor de blues, também interpretava canções de igreja, temas infantis, work-songs, baladas folclóricas, canções de cowboy, canções populares e o que mais lhe surgia pela frente.Tocava piano, acordeão, gaita-de-boca, bandolim e violão de seis cordas. Mas seu instrumento principal era o violão de 12 cordas, que descobriu no Texas e incorporou como acompanhamento vibrante, com seus acordes rítmicos e figuras de baixo, ao canto áspero, intercalado de comentários falados.
Huddie Leadbetter, mais conhecido como Leadbelly (Barriga de Chumbo), cresceu na fazenda do pai, na região pantanosa do Lago Caddo. Aos dez anos ganhou de um tio uma espécie de acordeão (windjammer) e, aos 13 anos, já tocava nos bailes de sábado. Durante a semana, Leadbelly cuidava do gado e colhia algodão, mas aos sábados ia para a farra e tocava a noite toda em bares e bailes. Ele mesmo admite que era um rapaz mau e terrível. Aos 15 anos foi acusado de engravidar a filha de um vizinho.
Um ano depois, a mesma jovem, solteira, engravidou de novo e Leadbelly teve de fugir. Armado de violão e Colt, botou o pé na estrada e foi tentar a vida na cidade. Até que se deu bem em Dallas: verão e outono, trabalhava nas fazendas colhendo algodão; inverno, tocava e cantava em salões de baile e bordéis. Mas seu Jinx (gíria do blues, algo como azar e maldição) era forte. Certa vez um rival abriu sua cabeça com uma garrafa. Em outra ocasião um assaltante enfiou uma faca no seu pescoço e esculpiu um belo talho, que virou cicatriz em forma de colar para o resto da vida. Mulherengo, geralmente conseguia o que queria. Uma vez, encontrou resistência e estuprou a moça. Pegou um ano de cadeia, no condado de Harrison, mas no terceiro dia saltou uma cerca e fugiu para a liberdade através de uma plantação.
Uma vez atravessava com dois companheiros a parte rasa de um rio e um deles falou que Leadbelly havia olhado para a garota do outro. Este puxou o revólver, os três estavam armados, mas Leadbelly foi mais rápido e deu-lhe um tiro na testa. No dia 13 de dezembro de 1917, foi condenado a 30 anos de prisão na penitenciária estadual de Shaw. Tentou fugir, tentou afogar-se num lago e não conseguiu. Deu a volta por cima e tornou-se chefe do melhor grupo de trabalhadores da prisão e o artista preferido dos presos. Um dia, a prisão recebeu a visita do governador do Texas, Pat Neff, com a Primeira Dama e comitiva.
Leadbelly cantou, tocou, dançou e improvisou até uma canção que pedia perdão ao governador. Neff era famoso por nunca ter perdoado ninguém, mas prometeu a Leadbelly: ''vou libertá-lo um dia, mas agora você tem que tocar pra mim.'' Um dia antes de terminar o mandato, em 1925, Neff deu ordens para que Leadbelly fosse solto. A maré de azar continuava. Em 1930, Leadbelly voltou à prisão, desta vez na fazenda estadual de Louisiana, em Angola, com uma sentença de 10 anos, por ter esfaqueado seis homens que queriam tomar a sua marmita para colocar uísque dentro. Mas, a sorte finalmente chegou, John e Alan Lomax, pai e filho, eram obcecados caçadores de sons e percorriam as trilhas do sul dos Estados Unidos tentando recolher músicas folclóricas de todos os tipos. Encontraram Leadbelly na Penitenciária de Angola e ele gravou outro apelo de perdão, desta vez endereçado ao governador da Louisiana, O. K. Allen, e um ano depois, ele deixava as grades e tornava-se motorista de John Lomax, conduzindo-o a prisões, plantações, jook joints, igrejas, bordéis e o que fosse. Além de ajudar os Lomax em sua pesquisa de campo, Leadbelly era introduzido por eles no circuito universitário, em palestras sobre folclore, seguidas de ilustrações.
A presença daquele negro em meio a um público universitário branco chocava, principalmente quando ele, num tom muito sério, recomendava: ''nunca matem mulheres, isso será o seu fim''. Leadbelly, em 1935, casou-se com Martha Leadbelly. A carreira do ex-marginal, de repente, entrou em alta. Em Nova York tocava para universitários, fazia programas de rádio e engajava-se em causas políticas trabalhistas de esquerda.
Uma coisa que Leadbelly sempre admitiu era a influência de Blind Lemon Jefferson em sua música. Os cantores de blues cegos eram sempre uma tradição e Jefferson era uma lenda. Apesar de toda a truculência, Huddie Leadbelly foi um bluesman sensível aos problemas sociais que o cercavam. Foi o primeiro artista folk a apresentar sua música em concertos a público branco fora do Sul. Foi também um dos primeiros a levar sua arte para a Europa, com apresentação na França, pouco antes de morrer. A essa altura já estava minado pela esclerose lateral amiotrófica e em 06 de dezembro de 1949, Leadbelly morria no Hospital de Bellevue, em Nova Iorque.
As gerações passam, mas a força da música de Huddie Leadbelly permanece, com a mesma vitalidade e urgência dos tempos heróicos do blues na estrada.
Kiko Jozzolino é guitarrista de blues e autor do projeto ''Popularização do Blues'' aprovado pelo Promic.
kikojozzolino@ folhaweb.com.br

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