O Delta foi berço de inúmeras histórias conturbadas sobre a vida de vários bluesmen envolvidos na marginalidade, alcoolismo e tudo que andava aquém dos moldes normais da sociedade. Sub-repticiamente, eles deixaram sua marca na história da música que até hoje é influenciada pelo seu estilo.
Com Tommy Johnson não foi diferente. Nascido em 1896, em Terry, Mississipi, ele aprendeu a tocar nas plantações, e desenvolveu uma prodigiosa técnica vocal, usando o recurso do Yodel alpino (o nosso popular ''tirolíeti'' de cantores vaqueiros como Bob Nelson). Uma das suas canções mais famosas foi dedicada à sua maior preocupação, a bebida. Canned Heart Blues, que inspirou o nome de uma banda de rock americana dos anos 60, refere-se a um óleo de cozinha gelatinoso com a marca Sterno.
No ano de 1928 a Lei Seca impedia que gargantas aplacassem a necessidade etílica. Tommy Johnson, homem do campo e criativo, matava sua sede de forma explosiva: óleo de cozinha queimado, coado, com um pouco de água e açúcar e bebia. Aliás, ele bebia tudo que tivesse álcool em sua composição química graxa de sapato, tônicos capilares, água de colônia etc. Um dos subprodutos sinistros deste etilismo desvairado que grassava no Delta eram os aleijados, resultantes das doenças provocadas pela ingestão de coquetéis tão nocivos. Muitas canções dos anos 30 abordavam o tema do jake leg, o entrevado, vítima da venenosa bebida clandestina.
Tommy Johnson gravou alguns blues, em 1928, pelo selo Victor e depois parou; tudo porque a bebida distorcia suas relações com o mundo. Na hora de assinar um contrato estava caindo de bêbado e acreditou ter vendido seus direitos para o resto da vida. A dúzia de blues que gravou influenciou incontáveis músicos do Delta. E Tommy Johnson continuou tocando e cantando até os 60 anos, quando morreu, em 1956, em Crystal Springs, depois de passar a noite inteira fazendo música na festa de aniversário de sua sobrinha.
No patois dos negros do Sul havia uma distinção entre os musicianers, que se destacavam por sua eficiência instrumental e os songsters, que eram mais apreciados por suas qualidades como cantores e compositores. Os bluesmen do Delta equilibravam estas duas características. Dentre outras coisas, foram eles os precursores da técnica do note-bending, de dobrar as notas do violão através do estilo slide. Corre uma versão beirando a lenda que a técnica surgiu quando um pente de bolso de um músico havaiano caiu justamente em cima do violão, criando o som novo ao deslizar na cordas de aço. Lenda ou não, foi Joseph Kekuku, do grupo dançarino exótico do Havaí Toots Paka, quem gravou slide pela primeira vez, em NY, em 1909. Mas, estudiosos da música afro-americana argumentam que o slide evoluiu a partir do one string, instrumento rudimentar de uma corda só, aparentado do berimbau. Um dos primeiros a fazer referência à técnica do slide foi o compositor W. C. Handy, relatando uma viagem ao Delta em 1903:
''Uma noite em Tutwiler, quando eu lutava contra o sono na estação à espera de um trem com nove horas de atraso, a vida subitamente me agarrou pelo ombro e me acordou com uma sacudidela. Um negro esguio e desajeitado tinha começado a dedilhar um violão ao meu lado enquanto eu dormia. Suas roupas eram trapos, os dedos dos pés saíam pelos buracos dos sapatos. Seu rosto continha algo da tristeza milenar. Ao tocar, ele apertava as cordas do violão com uma faca da maneira popularizada pelos guitarristas havaianos, que usavam barras de aço. O efeito foi inesquecível.''
Os sliders do Delta usavam o que tivesse a mão : facas, barras de ferro, pedaços de cano, gargalos de garrafas e até ossos de animais. Muitos descuidavam de proteger o dedo e acabavam a noite com a mão e o violão vermelhos de sangue. Com o tempo, muitos costumavam proteger o dedo com um trapo envolvido em óleo, para impedir que o vidro do gargalo (daí um dos nomes dados ao estilo, boottleneck) cortasse a pele.
Além de Tommy Johnson existem outras figuras lendárias, como Charley Patton, um dos mestres dessa técnica, considerado no Delta como um Deus. Estes serão citados em nossas próximas colunas semanais.

Kiko Jozzolino é guitarrista e blues e autor do projeto ''Popularização do Blues',' aprovado pelo Promic.
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