O Senado dos EUA declarou, com ironia involuntária, que 2003 é o Ano do Blues. O blues, poderoso, amargo, vil, esperançoso, divertido, nasceu da condição brutalmente degradada dos negros americanos nas primeiras décadas do século 20. A música era como uma cura para as feridas abertas nos homens e mulheres que trabalhavam como escravos nos campos de algodão e milho do Delta do Mississipi, ou lutavam contra a pobreza medonha e o racismo grotesco de outros locais do Sul, ou tentavam sobreviver com trabalhos domésticos e como vigias no ambiente impiedoso do Norte industrial.
Eram vidas condenadas à pobreza, tragédia e desespero. As oportunidades eram poucas e a expectativa de vida era pateticamente curta. E mesmo assim as pessoas aguentavam. O blues fornecia a trilha sonora. ''I got to keep moving'' (''Preciso continuar''), cantava Robert Johnson, talvez o maior bluesman de todos. ''I got to keep moving, blues falling down like hail, blues falling down like hail... And the day keeps minding me, there's a hellhound on my trail, hellhound on my trail, hellhound on my trail.'' (''Preciso continuar, a tristeza caindo como granizo, a tristeza caindo como granizo... E o dia fica me lembrando, há um demônio em meu caminho, demônio em meu caminho, demônio em meu caminho.''). Esta música está prestes a realizar um retorno triunfal.
O cineasta Martin Scorsese e alguns de seus colegas abriram as cortinas de um projeto magnífico. ''Isto é especial'', disse ele, numa entrevista. Scorsese e outros seis diretores - entre eles Wim Wenders, Mike Figgis e Clint Eastwood - estão produzindo sete longas sobre o blues (o filme de Win Wenders já foi concluído). Trechos de cinco filmes foram exibidos no Sundance Film Festival, este ano.
Os sete filmes serão projetados pela PBS (tevê pública americana) neste segundo semestre como peça central de um evento ainda maior, chamado Ano do Blues. Este incluirá uma série em 13 partes na emissora pública sobre a história do blues, um livro de referência com material de arquivo pouco conhecido e um programa itinerante de exposições e educação que, esperam os patrocinadores, alcançará 5 milhões de crianças.
O Ano do Blues começou oficialmente com um concerto beneficente no Radio City Music Hall, Nova York, em janeiro. O projeto cinematográfico começou há cinco anos, quando Scorsese produziu um musical com Eric Clapton, no qual foram usadas imagens de músicos de blues do passado. Dali, contou Scorsese, ''saiu a idéia de fazer uma série de filmes que honrariam a história do blues''.
Os filmes não são narrativas plenas nem documentários, e sim o que Scorsese chama de ''olhares interpretativos e pessoais sobre o blues''. ''A idéia'', explicou ele, ''era pegar as imagens de arquivo e então fazer viagens, lançar olhares interpretativos sobre o blues e conscientizar os jovens de que, em primeiro lugar, isso é uma forma de arte, e então fazê-los entender como o blues aconteceu, de onde ele veio e para onde vai.'' O filme de Scorsese, From Mali to Mississippi (De Mali ao Mississippi), ainda não foi concluído.
O longa volta aos ancestrais do blues, ''à margem do Rio Níger, em Mali'', e segue o percurso da música até os campos de algodão e tabernas do Delta do Mississippi. O blues de alguma maneira floresceu naqueles campos de opressão e passou a alimentar quase todas as formas da música popular americana que surgiram depois.
Em seu livro Deep Blues (Blues Profundo), o falecido Robert Palmer descreveu uma visita que fez em 1979, no Delta do Mississippi, à casa de Joe Rice Dockery, que herdara de seu pai o que sobrou de uma fazenda na qual um número impressionante de grandes músicos de blues viveu e tocou.
Dockery havia crescido na fazenda, mas nunca ouvira a música. ''Ninguém prestava muita atenção nessa coisa de blues até uns poucos anos atrás'', disse ele.
Kiko Jozzolino é guitarrista de blues e autor do projeto ''Popularização do Blues'', patrocinado pelo Programa Municipal de Incentivo à Cultura, de Londrina.
A Folha na Rota do Blues - até dezembro, em comemoração ao Ano do Blues, serão publicados neste espaço, sempre às sextas-feiras, textos sobre o gênero que redimensionou a música ocidental contemporânea.

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