ô impossível contar a história do Blues, sem citar Robert Johnson ...
Nascido em 8 de maio de 1911, a vida de Robert Leroy Johnson está mergulhada em histórias que fazem dele um mito. Morto aos 27 anos, não alcançou a fama em vida. Deixou apenas 29 faixas gravadas em cinco seções, pouco para os padrões do blues, mas suficiente para que na década de 60 se tornasse um verdadeiro Deus para músicos como Eric Clapton e Roling Stones, que com muita irreverência gravaram algumas de suas músicas.
Robert teve uma infância muito conturbada, e viveu jogado de lar em lar. Quando matriculado na Escola de Comercio de Indian Creek, os problemas de visão (cataratas em um olho) lhe dão motivo para se afastar das aulas. O menino então quer fazer música e o dilema se repete: os pais são contra. Ele então esperava anoitecer e saía as escondidas procurando as Jooks Joints, onde tocavam seus ídolos, Son House e Willies Brown.
As Jooks Joints eram, na região do Delta e em outras regiões, como templos de blues. Começou tocando a Jews harp o chamado berimbau-de-boca, passa para harmônica e finalmente encontra o violão. Além de perfeccionista na sua música, era muito vaidoso, e fazia muito sucesso com as mulheres.
John Shines , que viajou algum tempo com ele conta: ''A gente estava na estrada há muitos dias, sem dinheiro, às vezes até sem comida, sem falar num lugar decente para passar a noite, tocando em ruas poeirentas ou em cabarés sujos. Eu me olhava no espelho e me sentia um cão e lá estava Robert, todo limpo e elegante, parecendo que tinha saído da igreja''.
Com apenas 18 anos, casou-se com Virginia Travis, que aos 16 anos engravida e morre no parto do bebê. Robert encontra consolo na música. Este episódio marcou muito o lado trágico do seu blues. À procura do pai, viajava até Hazlehurst , sua cidade natal e nas jooks locais, Robert encontra um mentor na figura de Ike Zinnerman, o bluseiro que costumava tocar à noite nos cemitérios.
Aos olhos de Son House e Willie Brown, Robert era apenas um aprendiz promissor, mas tudo mudou de repente. No supersticioso sul dos Estados Unidos no início do século muitos acreditaram num pacto diabólico em troca de seu talento e habilidade com seu violão . O filme ''A Encruzilhada'' (Crossroads, EUA, 1986, de Walter Hill), com música de Ry Cooder, usa esta idéia para criar uma história vagamente inspirada em Robert Johnson.
Certo dia, ao se encontrar com Son House e Willie Brown, toca um blues como nunca o viram tocar antes. Demoníaca também, era a capacidade de Robert em estar numa sala cheia de gente conversando animadamente, enquanto um rádio ao fundo tocava alguma música. Ele totalmente envolvido na conversa, no dia seguinte ou até dias depois, era capaz de repetir nota por nota todas as canções que o rádio tinha tocado naquela ocasião. Algumas de suas músicas também citam explicitamente o demônio.
Fez sua primeira gravação aos 25 anos, num estúdio improvisado num quarto de hotel. Robert sentou-se diante de um microfone, com uma garrafa de uísque de milho aos seus pés, cortesia da produção. A sistemática da gravação foi detalhada por Frank Walker, um produtor da Columbia que fez muitos discos de blues nos anos 20. Robert foi descoberto quase por acaso por H. C. Speir que caçava músicos de talentos na época.
Ser musico era uma ocupação perigosa naqueles dias. Os outros músicos odiavam quem tocava melhor que eles. As mulheres o odiavam, pois eles olhavam para varias ao mesmo tempo. Um músico de talento tinha que ser cuidadoso, especialmente se não sabia com que tipo de mulher estava se envolvendo. E aquela altura, Robert era famoso por esse tipo de confusão.
Numa certa noite de sábado, 13 de agosto, tocando numa espelunca de Geenwood, no Delta, chamada Three Forks (Três Garfos - simbologia do demo), Robert sem saber travou intimidade com a mulher do dono do lugar. O barman serviu a ele uma garrafa de uísque já aberta e o gaitista Sonny Boy Willianson, outra atração da noite, macaco velho, jogou a garrafa ao chão antes que Robert pudesse beber. Ele discutiu com Sonny Boy e pediu a segunda garrafa, também com o lacre aberto, e Robert emborcou. O dono do bar, o marido traído, havia colocado estricnina no uísque de Robert.
Mesmo se sentindo mal, tocou e cantou a noite toda e depois foi levado para a casa de um amigo, onde morreria três dias após, 16 de agosto de 1938. A imagem de Robert Johnson se perde na névoa dos tempos, mas sua influência está viva. Ele marcou toda a escola de Chicago a segunda geração dos blues e se tornou o pai espiritual da terceira geração, os roqueiros britânicos dos anos 60.
Meio século depois de morto, ele conquistou um disco de ouro (a Columbia esperava vender 20 mil copias), e um Grammy com o álbum duplo Robert Johnson / The Complete Recordings. Aí além das 29 canções conhecidas, 12 alternate takes, foram descobertas, num total de 41 faixas.

Kiko Jozzolino é professor de violão e guitarra e autor do projeto ‘‘Popularização do Blues’’ aprovado pela Secretaria da Cultura de Londrina.
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