2003 - ANO DO BLUES
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 11 de setembro de 2003
Kiko Jozzolino<br> Especial para a Folha2 
Um toque de respeito
Branco é branco, negro é negro, mas no blues a cor não faz diferença nenhuma
Para uns o blues pode estar numa encruzilhada criativa, mas com certeza o blues é uma forma de arte franca e direta, que fala sem rodeios da condição humana. O papel de certos músicos na sociedade parece haver considerável desacordo, embora existam diferenças quanto a forma de expressão, certas bandas insistem em afirmar que tocam blues, mas na verdade não passam de bandas de rock sem a verdadeira essência do blues.
B.B. King chegou ao blues através da religião um cunhado de seu tio deixou o violão sobre a cama durante um almoço dominical e King pegou e começou a dedilhar. O pastor o pegou em flagrante, mas, em vez de censurá-lo, ensinou-lhe três acordes. King comenta: ''Quer saber de uma coisa? Estou tocando aqueles acordes até hoje...''
Há pouco tempo disse ele numa entrevista: ''A música não tem cores. O que chamam de blues para mim é música, apenas música. Qualquer pessoa, de qualquer nacionalidade, se desejar, pode tocar qualquer tipo de música, de todas as maneiras. E acho que já vem fazendo isso bem. Já andei por muitos lugares. No Japão, por exemplo, escutei certa noite uma banda que tocava blues muito bem. Cheguei perto e disse hello e eles responderam em japonês. Não falavam uma palavra em inglês, mas não precisavam, para tocar o blues, qualquer um pode tocar. Existe uma música feita por negros que não me agrada ouvir, não é o fato de ser negro que fará de alguém um grande interprete do blues''.
O blues não se aprende na escola, nem em aulas particulares, tampouco em apostilas, partituras ou cifras. Quem acha que vai aprender a tocar blues assim está muito enganado, o blues é um estado de espírito. Jimi Hendrix definiu o impasse melhor que ninguém: ''Os blues são fáceis de tocar, mas difíceis de sentir, seja negro, branco ou roxo, se alguém gostar de sua música o bastante para ser inspirado por ela, então esta tudo bem. É ridículo dizer que esta música só pode ser tocada por negros''.
Miles Davis disse em 1957: ''Você não aprende a tocar blues, você simplesmente toca. Eu nem chego a pensar em harmonia, a coisa flui naturalmente. Você aprende a tocar as notas onde elas soem direito''. Alguns músicos tocam blues em cima de estruturas prontas, além disso quando tocam não expressam nenhum sentimento, o fazem como se estivessem trabalhando em um caixa de um banco. Não basta estruturar uma banda com bons músicos, e achar que toca blues.
John Lee Hooker nunca precisou de uma banda para empolgar uma platéia, só dele mesmo batendo os pés e cantando no estilo do blues falante, cadenciado por riffs de guitarra, seja num pequeno café ou numa grande sala de concerto. Tocar blues atualmente remete à um estado de elegância, mas no final das contas, só sobrevive quem tem autenticidade, o blues é puro sentimento, ele não está escrito nos livros. Quando a música avança muito e fica perto de se tornar apenas técnica, isso não é blues.
Kiko Jozzolino é guitarrista de blues e professor de violão e guitarra, além de divulgar o blues há dez anos
kiko jozzolino @folhaweb.com.br


