2003 - Ano do Blues
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 31 de julho de 2003
Kiko Jozzolino<br> Especial para Folha 2 
O blues está triste
Quem disse ''o blues está triste'' foi um dos últimos gigantes vivos do gênero: o guitarrista Buddy Guy, que ao lado de B.B.King, representa o blues genuíno. Buddy Guy não enxerga um bom futuro à frente. ''Essa música não pode morrer'', declarou ele.
O temor é completo, o blues esta atolado numa crise, e a pergunta principal é qual será seu futuro? Nos anos 50, o gênero viveu seu ápice nos acordes de gente como Muddy Waters. Nos anos 60, foi descoberto pelos Roling Stones, por Bob Dylan e Led Zepellin e virou cult. Nos anos 70, Eric Clapton foi até chamado de deus, pelos lindos acordes que tirava de sua guitarra. E, nos anos 80, uma nova geração, capitaneada por Stevie Ray Voghan (1954 a 1990), se destacava.
''O rap e o hip-hop tomaram completamente nosso espaço'' lamenta Buddy Guy, de 67 anos, em entrevista a revista ôpoca: ''Nem meus netos se interessam pelo que faço'' , ele diz e ''as rádios dedicadas ao gênero estão fechando as portas, lançar CDs está cada vez mais difícil''.
Para rebater a crise, até foi criada a Blues Music Association.
No Brasil, um grande pólo consumidor do estilo, dança no mesmo compasso.
O guitarrista Nuno Mindelis, uma das sumidades do blues no Brasil, fazia cerca de dez shows por mês na década passada, hoje faz quatro ou cinco. A banda Blues Etílicos também não fica muito atrás. O disco ''San-Ho-Zay'', de 1990, vendeu 35 mil cópias, já o ''Águas Barrentas'', de 2001, vendeu 5 mil.
A internet também atingiu em cheio a vendagem de discos, com a troca de músicas pela rede e com a facilidade de reprodução de cópias, o mercado fonográfico do blues está em declínio. Para muitos o blues corre o risco de tornar-se um estilo morto e ultrapassado.
A nova geração do blues repete o que se fazia nos anos 50. É preciso renovar o blues para que ele não se acabe, clama o mais nobre bluesman brasileiro o guitarrista André Christóvam, que no ano passado esteve em Londrina fazendo um show para seletas 250 pessoas.
Mas não são só notícias ruins. Como qualquer música de raiz, o blues resiste graças à fidelidade religiosa de seu público e seus seguidores. Eles não fazem uma ligação direta entre o sucesso e a fama. Na profissão de músico como em qualquer outra, a fama não está ligada diretamente ao sucesso. O músico pode ter sucesso e não ter a fama.
O blues pode ser visto como um reflexo de um sofrimento, das qualidades e das atitudes de negros americanos por mais de um século, sempre com simplicidade, sensualidade, poesia, humor e até ironia.
Em meados dos anos 40, após a eletrificação do blues, abriu-se caminho para o surgimento do rock, Muddy Waters foi responsável pela transcrição do blues rural ao blues urbano. Em 1960 Muddy Waters gravou um álbum que influenciou uma geração inteira de músicos, que posteriormente formariam grupos que entrariam para a história do rock, tais como Beatles, Yardbirds, Allman Brothers, entre outros. O resultado de todo esse movimento, é que a criatura superou o criador. O rock conseguiu tanto sucesso, que se tornou um fenômeno de popularidade mundial, e o blues já começou a ser desprezado nesse processo, porém nunca deixou de ser relevante. Com isso o blues foi eclipsado pela grande explosão do rock.
Talvez só nos tempos de escravidão, quando os negros americanos cantavam a saudade da África e inventaram um gênero musical, a palavra blues tenha sido tão precisa quando agora. A palavra ''blues'', quer dizer tristeza, melancolia. O blues pode estar triste, mas não é preciso estar triste para ouvir o blues.
Kiko Jozzolino é guitarrista de blues e autor do projeto ''Popularização do Blues'' aprovado pela Secretaria de Cultura da Cidade de Londrina.
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