O blues nasceu com o choque cultural entre o escravo africano e a civilização norte-americana. Por que os negros da África não fizeram blues no Brasil por exemplo? Isto é uma questão de colonização, acontece que as variáveis, neste caldo cultural, eram diferentes. O importante é levar em consideração a origem de cada escravo.
No Brasil os fazendeiros foram abastecidos pelos portugueses desde cedo com escravos senegaleses; na Espanha preferiam os iorubas; os ingleses optaram pelos ashantis; já os franceses optaram por negros do Daomé.
Houve algumas exceções, porém, de maneira geral, o padrão vive até hoje: a música africana predominante em Cuba (originalmente espanhola) é irorubana; na Jamaica (britânica) é ashanti; e no Haiti, antigamente colonizado pela França, é do Daomé. Os Daomé eram os adoradores originais do Vodu - o deus-serpente Camballa é uma das suas divindades. O fato de Nova Orleans ter sido por algum tempo uma colônia francesa, ajuda a explicar por que esta cidade é a capital ''hoodoo'' dos Estados Unidos.
Existem analogias. Na semelhança de instrumentação: o berimbau é a versão brasileira do one-string, ou bow diddley, o violão rudimentar do Sul dos Estados Unidos; o nosso berimbau de boca parece-se com a jew's harp do blues. Em ''Música de Feitiçaria no Brasil'' (1933), Mário de Andrade - o pai de Macunaíma - que foi também um grande pesquisador musical, mostra a proximidade dos sons rurais do Brasil e dos Estados Unidos.
O Blues permaneceu um gênero especificamente afro-americano, e não se repetiu em outros países de cultura européia que tenham recebido populações negras.
Talvez o equivalente do blues no Brasil seja o samba, e o ''country'', o sertanejo.
''Bessie Smith foi para o blues americano como Clementina de Jesus foi para a música afro-brasileira'' escreve Claus Schreiner, um brasilianista musical no livro ''O blues da lama à fama'' de Roberto Muggiati (um excelente livro para quem se interessa pelo assunto).
O blues americano invadiu o mundo e foi submetido a imitações. Fala-se de um ''blues branco'' ou do ''blues britânico'' - embora historicamente o blues seja uma criação exclusiva do negro norte-americano. Mas graças aos modernos meios de comunicação, o blues se expandiu pelo mundo e chegou também ao Brasil. Ironicamente - apesar de ser o mais antigo - foi o último dos estilos musicais a invadir a nossa praia.
Os festivais de jazz de São Paulo (1978 e 1980) trouxeram ao Brasil importantes figuras do blues, como John Lee Hooker, B. B. King, Albert King, Albert Collins, Joe Willians, Bo Diddley, entre outros. A noite do blues no Free Jazz tornou-se a mais concorrida do festival, reunindo bluesmen de todos os matizes, velhos e novos, brancos e negros.
O interese pelo blues cresceu tanto no Brasil. No final dos anos 80, em Ribeirão Preto, cobras como Buddy Guy, Junior Wells, Albert Collins, Magic Slin e Etta James, se juntaram aos brasileiros Blues Etílicos e André Christovam. André trabalhou nos Estados Unidos como rodie de Albert Collins, ou seja, carregava seus amplificadores a ajudava a montar o palco nos shows e turnês. Dez anos depois, os dois se reencontram em Ribeirão, Collins reconheceu imediatamente André Christovam e o carregou no colo. (André pela sua importância na história do blues brasileiro merece uma coluna exclusiva contanto toda sua trajetória).
A energia deste festival foi de admirável descontração, ajudada segundo muitos, pelas virtudes excepcionais da água da cidade, a única do mundo abastecida totalmente por poços artesianos, ou seja, a pureza da água de Ribeirão garante a qualidade de sua cerveja e seu chope, considerada uma dos melhores do país. Durante o evento, só na tradicional Choperia Pinguim, rolaram para as gargantas dos bluesmen, 4.500 litros em quatro dias de festival. Com a garganta bem lubrificada os músicos retribuíram a altura em suas apresentações. E muito mais: Albert Collins tocou viola caipira no hall do hotel com a dupla sertaneja Lourival e Lourenço. E John Primer - guitarrista de Magic Slim, desfilou numa kombi pelas ruas de Ribeirão cantando blues para divulgar o festival.
Em 1990 a dose se repetiu, trazendo para o ginásio do Ibirapuera, São Paulo, nomes como Koko Taylor, Bo Diddley, Magic Slim, John Harmmond, e outras feras. E o marketing entrou em ação em maio de 94 com o Nescafé e Blues, que trouxe a São Paulo, entre outros, cobras como Robert Cray, Otis Clay, Coco Montoya , Robben Ford e Lonnie Brooks.
Cesar Castanho foi o responsável por todos estes festivais e por uma série de apresentações de blues no 150 Club do hotel Maksoud Plaza. Em 1983 conseguiu o feito de trazer ao Brasil uma das maiores lendas vivas do blues Alberta Hunter. Ela se apaixonou pelo Brasil tanto que voltou em 1984, essa altura com 89 anos, já frágil ela passava o dia inteiro no quarto do hotel comendo caqui e depois era conduzida ao palco numa cadeira de rodas, oculta do público. O publico só a via de pé quando as luzes se acendiam. Ela prometeu voltar no ano seguinte para festejar seus noventa anos no 150 Club, mas morreu antes, em outubro de 1984.
O livro Alberta Hunter, ''A Celebration of the Blues'', registra a acalorada discussão entre Alberta e seu empresário: ''Isto vai te matar. Você voltará do Brasil num caixão e não vou assinar seu atestado de óbito'' disse Barney.
Já seu advogado disse, que ela estaria morta há muito tempo se não tivesse vindo aqui trabalhar de novo. Ela acabou com a discussão dizendo: ''Só faço o que tenho vontade de fazer: vou ao Brasil''. Seria impossível relatar a história do blues no Brasil em tão poucas linhas, mas na próxima sexta-feira vamos dar continuidade falando um pouco mais sobre a trajetória dos bluesmen brasileiros.

Kiko Jozzolino é guitarrista de blues e autor do projeto ''Popularização do Blues'' apoiado pelo Programa Municipal de Incentivo à Cultura (Promic), de Londrina. [email protected]

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