2003 - Ano do Blues - Um som que é só saudade
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 17 de julho de 2003
Kiko Jozzolino<br> Especial para Folha 2<br> ''Os negros das plantações cantam t 
As melancólicas raízes do blues começaram a surgir em agosto de 1619, quando o primeiro navio negreiro atraca na costa-americana. A obscena instituição do tráfico foi proibida em 1808, mas os escravos continuavam chegando abarrotados nos porões dos navios negreiros, arrancados à força da África para o trabalho forçado em lavouras de algodão, tabaco e milho nas cercanias de New Orleans, nos estados de Alabama, Mississipi, Lousiana e Georgia.
No espírito dos desafortunados escravos, uma profunda saudade do que ficou para trás e uma rica cultura folclórica amordaçada. Mas a musicalidade latente dos africanos não tardaria a se manifestar. Aos poucos, surgem as ''work songs'', verdadeiros lamentos melódicos, entoados pelos negros na árdua tarefa de plantar e colher os produtos da terra.
Enquanto uma voz entoava um verso, os outros trabalhadores faziam o coro.
No início, nas línguas nativas: fon, bantu e yorubá; com o passar do tempo, uma mescla de palavras de dialetos africano e inglês, incorporado na convivência com os fazendeiros da região.
O negro era uma ferramenta de trabalho, até nos raros momentos de lazer, quase tudo lhe era interditado. Não podiam tocar instrumentos de percussão ou de sopro, pois os brancos receavam que pudessem ser usados como um código, incitando à rebelião, por isso a voz ficou sendo o principal instrumento musical do negro na época.
Estas canções (work-songs), o feitor cadenciava o trabalho dos escravos na batida dos martelos dos machados ou em qualquer trabalho feito por eles. Os proprietários também se tranquilizavam, pois quando as ouvia, garantia que seus escravos estavam sob controle no devido lugar, alem de que essas canções tornavam o trabalho mais rentável.
Os berros eram expressões tão pessoais que identificavam imediatamente quem os emitia, eles serviam como uma forma de comunicação nos campos do sul e muitas canções evoluíram a partir deles. Também eram ouvidos nas ruas da cidade, onde ambulantes vendedores negros anunciavam seus produtos ou serviços através de um canto rítmico. Alguns desses gritos foram gravados nas ruas de Chaleston, Carolina do Sul, no início do século, e preservados em disco, o LP ''Riverside A History of Classical Jazz''.
Existiam negros que também anunciavam a chegada e partida dos trens na estação , eram autênticos artistas do grito. Não parece existir maneira de descobrir quem foi o cantor que primeiro criou o blues como o conhecemos, mas ele é uma forma de canção específica e em algum lugar, provavelmente numa cabana do Delta, um cantor que conhecia as melodias e os versos improvisados nas work-songs do Mississipi, decidiu cantá-las de uma maneira nova e assim nasceu o blues.
O incrível fascínio do grito negro impressionou muitos viajantes, como F.L.Holmstead, que percorreu o sul dos Estados Unidos antes da Guerra Civil (1861-1865). Ele relata o que aconteceu quando dormia num vagão de um trem de passageiros: ''À meia noite fui acordado por uma forte gargalhada e, olhando pela janela, vi que o bando de carregadores negros tinham feito uma fogueira e estavam desfrutando de um alegre repasto. Subitamente, um deles emitiu um som que eu nunca ouvira antes; um grito longo, forte e musical, subindo e descendo, transformando-se em falsete, sua voz atravessando a mata e cortando o ar límpido e gelado da noite como um toque de clarim. Quando terminou, a melodia foi continuada por um outro e, em seguida, por vários, em coro.''
Em 1965 o bluesman Son House especulava: ''As pessoas insistem em me perguntar onde os blues começaram e tudo que posso dizer é que, quando eu era garoto, a gente estava sempre cantando nos campos. Não chegava a ser canto, era mais gritaria, mas nós fazíamos nossas canções sobre as coisas que estavam acontecendo com a gente na época e acho que foi assim que o blues começou .''


