Nos anos 40, o êxodo de muitos sulistas pobres não era mais para o Grande Norte, mas para o promissor Oeste. Com a Segunda Guerra, a indústria bélica e os campos de petróleo ofereciam muitos empregos na Califórnia. Os japoneses de Los Angeles foram removidos para os campos de concentração e o bairro próximo da Central Avenue, conhecido como Little Tokyo, em pouco tempo passou a se chamar Little Harlem. Por volta de 1950, os negros de Los Angeles somavam cerca de 200 mil. E haja música para essa gente! Música geralmente feita por negros. Todo tipo de som rolava em Los Angeles. Foi nesse ambiente que T-Bone fez seu nome. Aaron Thibeaux Walker era seu verdadeiro nome. O apelido T-Bone veio de ''T-Bow'', palavra ''criolle'' que significa bonito, mas há uma segunda versão: que, na verdade, a incapacidade das pessoas pronunciarem seu nome, Thibeaux, foi o motivo de tudo.
Nascido em Dalas em 1910, a música estava no seu sangue e o garoto dançava e passava o chapéu nas apresentações da orquestra de cordas do padrasto. Aos doze anos, ganhou um banjo de sua mãe. Foi guia do cego - e que cego - Blind Lemon Jefferson de quem aprendeu muita coisa. Colou também em Huddie Leadbelly para melhorar seu blues. Aos 16, já havia gravado dois discos com o nome de Qak-Cliff T-Boné. Acompanhou as cantoras Ma Rainey e Ida Cox. Foi aluno de Chuck Richardson em Oklaroma City.
T-Bone foi um músico com muitos vícios: bebida, jogo e mulheres. Apesar disso, a história diz que foi um bom pai, nunca renunciando ao seu casamento com Viola Lee, com quem teve três filhos.
Havia lama nas ruas de Watts, o gueto de Los Angeles, quando Walker começou a trabalhar como dançarino na banda do saxofonista Big Jim Wynn. Em pouco tempo, cantava e tocava guitarra, impressionando não só com seu desempenho sonoro mas com toda acrobacia que incluía tocar guitarra atrás de suas costas e exibir alguns passos coreográficos. Em 1939, foi compensado com uma nota na revista de Jazz Downbeat, o chamando de ''a nova estrela da banda''. Por essa época tem início a transição do blues lento para o andamento mais rápido, chamado de Jump, do qual ele era um mestre.
Em 1947 gravou uma canção que calou fundo na população negra, ''Call It Stormy Monday''. Ela refletia o estado de espírito de muitos negros que lutaram nas frentes de batalha da Europa e do Pacífico, tornaram-se heróis e depois voltaram para o pobre anonimato nos guetos das grandes cidades. Com a mistura do boogie e jump no blues tocado com guitarra elétrica, T-Bone Walker ajudou a criar o idioma do rhythm e blues que, com algumas poucas modificações, desembocaria no rock'n'roll dos anos 50. Tocando com a guitarra nas costas, dando cambalhotas, caminhando para a platéia e, muitas vezes, até saindo com a banda pela rua, Walker antecipou loucuras que, dez anos depois, fariam fama de músicos como Chuck Berry e Little Richard.
Walker acabou sendo vítima do seu próprio sucesso. Em pouco tempo o mercado estava cheio de clones de T-Bone e a competição cada vez mais forte. Enquanto isso, Chuck Berry subia nas paradas de sucesso com ''Sweet Little Sisteen'', uma canção que era quase um cover de um tema de Walker de 1946, ''Bobby Sox Blues''.
Walker seguiu tocando como sabia até morrer em 1975, num hospital de Los Angeles, onde uma multidão acompanhou seu enterro como prova de que o velho texano marcou a ferro e fogo a história do blues. Seus restos mortais encontram-se em Inglewood.
T-Bone Walker é, sem dúvida, alguma um dos maiores guitarristas de todos os tempos, tendo sido influência para Albert King, Buddy Guy, Elmore James e B.B. King.
Kiko Jozzolino é guitarrista de blues e autor do projeto ''Popularização do Blues'', aprovado pelo Promic, em Londrina.
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