O momento é oportuno para lembrar a história do blues e contar como nasceu esse gênero melancólico e peculiar, mostrando sua evolução até hoje. Foi no diário de Charlotte Forten que aparece pela primeira vez o termo ''blues''. Charlote era uma negra nascida livre no norte, que tinha estudado e se tormado professora e que depois de alguns anos de ensino no estado de Maryland , decidiu, a pedido do proprietário, ensinar a ler os escravos de Edito Insland , na Califórnia do Sul, e aí morou de 1862 a 1865. Lá manteve um relatório quase que diário desses anos. No domingo, 14 de dezembro de 1862, transtornada pelos gritos que subiam dos bairros dos escravos, escreveu: ''Voltei da igreja com o blues. Me joguei sobre meu leito e pela primeira vez, desde que cheguei aqui, me senti muito triste e muito miserável''. Se o blues teve um berço, é o Delta. Ao ouvir falar no Delta a maioria pensa no Delta do Mississipi, nas vizinhanças de New Orleans. É um engano. Lá foi o berço do jazz. O Delta a que os bluesmen se referem, é o Delta lamacento do rio Yazoo, que junta as suas águas às do Mississipi nas proximidades de Vicksburg. Se perguntarmos a um sulista onde começa o Delta ele vai rir e sua resposta vai ser: ''O Delta começa no saguão do Hotel Peabody , em Memphis Tennessee e vai talvez até Vickburg ou Jackson , o Delta começa abaixo de Memphis e vai para o Sul, tão longe ao sul quanto você quiser''. O Delta deu terra rica para as plantações de algodão. Com o trabalho escravo, e com a abolição da escravatura, os negros continuaram a trabalhar em regime de semi-escravidão. O esquema dos sharecroppers (meeiros) foi vilmente explorados pelos brancos proprietários de terras. Os meeiros e bóias-frias chamavam o patrão de boss, bossman ou Big Boss. O sistema de plantação era rígido e autoritário, essa região do Delta era conhecida como Cinturão Negro pelo grande índice de linchamentos, espetáculos públicos demorados e sangrentos, se um negro olhasse para uma mulher branca poderia ser acusado de estupro, além disso, no Mississipi , podia valer ao negro a prisão perpétua. Quando o branco tinha que construir uma estrada ou erguer um dique para se proteger das enchentes, o negro era a mão de obra eleita, principalmente porque saía de graça. O branco recorria ao trabalho dos presidiários, e quando faltavam trabalhadores, era fácil fazer presidiários: se o negro bobeasse e saísse de casa sem documento era preso por vadiagem, se retrucava, tinha a pena aumentada por desacato à autoridade. Assim, acabavam vestindo o pijama listrado e bolas de ferro presas aos pés por meio de alças e correntes, as famosas ''ball and chains '' tão cantadas pelo blues. Foram descobertos nas penitenciárias do Mississipi alguns dos melhores cantores de blues; e foi também atrás das grades que muitos tiveram seu aprendizado musical. Nessa atmosfera opressiva do Delta era natural que os negros se voltasem para o blues, pois eram uma densa população afro-americana pobre e isolada, forçada a criar suas próprias diversões . Foi no Mississipi que o compositor W.C.Handy ouviu pela primeira vez a música que chamou de '' primitiva'' , um trio instrumental de blues, e foi lá tambem que surgiu um dos primeiros blues, ''Yellow Dog Blues'', alusão à ferrovia Yazoo & Delta. Neste cenário nasceram figuras lendárias do blues como Ike Zinnerman, que buscava inspiração tocando seu violão num boneyard (canteiro de ossos) num cemitério a meia-noite, sentado sobre uma sepultura qualquer. Esse foi um simples começo. Jamais se imaginou que as melancólicas raízes do blues fossem ser fontes de tantos gêneros musicais americanos, como o jazz, soul, disco, rock'n'roll , uma boa parte da música pop, da corrente folk urbana e mesmo da música country em todas as suas derivadas, como western swing, bluegras, rockabilly entre outras.
Willie Dixon, baixista, arranjador e compositor de clássicos como ''Hoochie Coochie Man'', tem uma frase que resume a tudo: ''Os blues são as raízes e as outras músicas são os frutos. É bom manter as raízes vivas, porque isso significa melhores frutos para o futuro''. As canções já não são apenas lamentos nem só bravatas. Atualmente o blues serve de inspiração para sete importantes cineastas, como Martin Scorse, estarem produzindo documentários sobre a historia desse gênero fazendo uma retrospectiva da época das raízes, no final do século 19, até nossos dias.
Kiko Jozzolino, guitarrista, é autor do projeto ''Popularização do Blues'' aprovado pelo Promic, em Londrina. e-mail: [email protected]
A Folha na Rota do Blues - Até dezembro, em comemoração ao Ano do Blues, serão publicados, às sextas-feiras, neste espaço, textos sobre o gênero que redimensionou a música ocidental.

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