2001: o que disseram as câmeras?
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domingo, 20 de janeiro de 2002
Rodrigo Souza Grota 
Por onde caminhou a linguagem cinematográfica durante 2001? Definitivamente, essa não é uma questão muito simples de ser resolvida. Como ocorreu nos últimos anos, a diversidade de tendências apresentadas aponta para um cinema cada vez mais complexo, múltiplo e, pasmem... tradicional. Mas não aquela tradição que preserva os limites estéticos, racionais, e inibe a autodescoberta do artista e do público. Estamos falando de um cinema que aposta nos velhos pilares da boa arte para mostrar o mundo em que vivemos. Temas atuais, última tecnologia e a velha e essencial forma de contar histórias. Vejamos.
Entre os mais de cem títulos que estrearam no Brasil, um romance à Truffaut se destacou pela retomada de um gênero que parecia se destinar ao isolamento: os velhos melodramas. Criado por cineastas como John M. Sthal, e ampliado sob os olhares de gênios como Luchino Visconti e Douglas Sirk, o melodrama atribuiu ao cinema aquilo que parecia restrito à ópera emoções exasperantes que constituem a própria essência dos personagens. Eles existem porque sentem. Eis o que filtrou Wong Kar-Wai na obra-prima do ano, Amor à Flor da Pele. Um romance que se desfaz pela sinceridade dos amantes. Um filme que se constrói sob o romantismo moderno do autor.
Sob o mesmo enfoque, poderia-se incluir dramas como O Quarto do Filho, de Nanni Moretti, O Caminho para Casa, de Zhang Yimou, Billy Eliot, de Stephen Daldry, Antes do Anoitecer, de Julian Schnabel, Réquiem para um Sonho, de Darren Aronofsky e História Real, de David Lynch. Todos com suas singularidades... unificados por um tom emocional impresso às películas.
Sem se desviar de uma melancolia própria de Raduan Nassar, Luiz Fernando Carvalho criou o que pode ser considerado o nosso segundo Limite (obra-prima vanguardista de Mário Peixoto), o proustiano Lavoura Arcaica. É um filme único: não faz concessões ao público, centra sua ação dramática na própria inexistência de conflitos, e ainda se vale de uma fotografia impecável de nosso mestre Walter Carvalho. A influência de grandes como Andrei Tarkovsky ou Ingmar Bergman se faz presente em todos os enquadramentos. E a regra foi uma só: os dramas se perpetuam, não precisam seguir a linearidade que a ficção teima em nos impor.
Ampliando as estruturas da narrativa, algumas obras se mostraram exemplares. Amnésia, de Christopher Nolan, ofereceu ao público um cardápio de imagens que geralmente só é apresentada ao montador de um filme. Uma trama do fim para o início que estimulou o espectador a criar a história simultaneamente à projeção da película, desvendando os mistérios de um thriller que exclui os limites entre o falso e o real.
Já Baz Luhrmann e Lars Von Trier preferiram desafiar os musicais. Moulin Rouge enfocou uma França ainda romântica, perdida em sua devassidão. Mas esperançosa por uma última saída: a busca pelo amor. Trier preferiu explorar a redenção humana também por meio de tintas exageradas, extremadas, fazendo de Dançando no Escuro um elogio ao excesso. Ambos não respeitaram as regras dos musicais impuseram um final trágico a suas protagonistas, mas nos mostraram que a fábula mais alegre pode ser imbuída da mais triste realidade.
No gênero policial, Caminho sem Volta, de James Gray, trouxe tudo aquilo que Hollywood infelizmente esqueceu. Um filme de gangstêres modernos, complexos, que oscilam entre a ambivalência moral tão comum ao humano. Antes de criminosos, são movidos por paixões. O modo como Gray apresemta uma Nova York corrupta remete à tragédia grega. No fim, todos se perdem...
Dr.T e as Mulheres ofereceu um Robert Altman no auge. Seguindo também uma linha contínua que não atribui a sua trama nenhum fim aceitável pelos espectadores. É uma fábula insana, mas saborosamente possível. Aliando-se a belas produções como A Fuga das Galinhas, Malena e O Jantar.
Mas a grande revelação do ano veio com a maestria de Steven Soderbergh. Ele reiventou o policial americano contemporâneo, moldando Traffic com toda a complexidade que a realidade exige. O modelo também remonta a um velho formato: os filmes noir mais realistas, que se valiam de um submundo rico para contar tragédias reais por meio de películas. O principal ícone dessa geração, Jules Dassin, está em cada personagem dúbio de Traffic, assim como Nicholas Ray estava em cada cena de L.A. Confidential, de Curtis Hanson, há quatro anos.
Ainda há inúmeras produções que poderiam se destacar em um ano que será lembrado mais pela realidade. Bicho de Sete Cabeças, A Enfermeira Betty, Quase Famosos, Tônica Dominante, Nove Rainhas e A Hora do Show agradaram público e crítica, mas se resignaram a uma certeza cinematográfica que inibe ousadias inéditas.
Após essa síntese, o que se apreende de todas as fábulas visuais expostas em 2001 revela um cinema flertando com paixões intensas, experimentando o digital como novo suporte, ampliando regras de gêneros, e revisitando os filmes consagrados para extrair algo realmente novo. Em poucas palavras, o cinema caminhou para perto de si mesmo e se reencontrou em alguns casos.


