''2001'' : A ODISSÉIA CONTINUA
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 15 de janeiro de 2001
Carlos Eduardo Lourenço Jorge De Londrina Especial para a Folha 2 
Poucos, raríssimos os filmes que receberam na estréia tantas e tão caudalosas manifestações escritas como 2001 - Uma Odisséia no Espaço, realizado em 1968 por Stanley Kubrick. Ou foram imediatamente motivo e objeto de tantos e tão acalorados debates científicos, religiosos e filosóficos. Ficção científica de corte metafísico, a obra-prima surgiu assim, de repente, meio que vinda do nada, ao estilo impactante de Kubrick e de seu famoso monolito negro que aparece na tela gigante emoldurado pela música retumbante de Richard Strauss e resguardado de uma imediata definição Deus?, o Homem? manifestação extraterrestre? o tempo que passa?
Dividido em três partes distintas, relata nem mais nem menos do que a história da humanidade. Em duas horas e 21 minutos apenas 40 minutos de diálogos Kubrick inventa um estilo onde realismo e lirismo se confundem. Com 2001 nascia a legenda Stanley Kubrick: visionário, perfeccionista, inventor. Definitivamente livre de qualquer padrão ou regra preestabelecida.
O cineasta, que morreu em março de 99, aos 70 anos, foi sempre muito contido quando indagado sobre os possíveis significados embutidos em seu filme. Mas ele realizou um trabalho tão intensamente minucioso baseado em leis da Física e nas mais bem informadas projeções da época que 2001 permanece como a mais respeitada e influente space opera já realizada. Guerra nas Estrelas pode ter cativado platéias muito maiores, com seus heróis a laser, mas 2001 é inevitavelmente citado por cientistas e engenheiros espaciais da NASA como o filme que desenhou na tela, de forma mais acurada, uma viagem espacial.
Kubrick, que considerava 2001 não um filme profético mas uma fábula ou um documentário mitológico, de acordo com suas próprias palavras, oferece uma extraordinária abordagem da exploração espacial no futuro. Vôos comerciais interplanetários, hibernação induzida de astronautas e o videofone foram apenas três das novidades introduzidas por ele e pelo co-roteirista Arthur Clarke, autor do conto A Sentinela , ponto de origem para a odisséia kubrickiana. O filme também antecipou o desenvolvimento da inteligência artificial quando imaginou e materializou o mais assustador vilão da galeria cibernética, o supercomputador HAL 9000, capaz de raciocinar, conversar, jogar xadrez, fazer leitura labial, reconhecer e expressar emoções, controlar todo o funcionamento de uma nave e, eventualmente, ser acometido de disfunção e ímpetos homicidas.
Manifestação do gênio humano mas também instrumentos de sua desgraça, as máquinas sempre fascinaram Kubrick, de resto absorvido pelo tema ainda mais amplo do conflito a atormentar o homem: o desejo de construir em permanente e insolúvel antagonismo com o ímpeto de destruição. O desarranjo de HAL-9000 é imputado ao erro de um técnico. E enquanto 2001 mostra a humanização de uma máquina, capaz de sentimentos destruidores como a vaidade, o filme seguinte, A Laranja Mecânica (71) descreve a mecanização de um homem. Privado do livre arbítrio por um tratamento condicionante, o personagem Alex vivido por Malcolm MacDowell é condenado a praticar somente o bem. Em Nascido para Matar (87), os soldados são praticamente metabolizados
para se tornarem máquinas de guerra. Dessa exploração kubrickiana das relações homens/máquinas nasce a utopia do super-homem, infalível e dotado de consciência. Também por isso é de se lamentar a morte prematura do diretor, que precisaria ter vivido mais seis, sete anos tempo médio de amadurecimento e realização de cada filme seu para rodar A.I. (Artificial Intelligence), acalentado projeto fetiche agora sob os cuidados de Steven Spielberg
.
Neste limiar de 2001, mais importante do que saber se a ficção realizada há três décadas se transformou em fatos, interessa é ficar com uma certeza, nada trivial. No momento, é preocupante o avanço da tecnologia, bem como de suas implicações. E quanto a isso o filme permanece um alerta premonitório: a tecnologia é garantia de poder, mas também pode ser nefasta. A estranha engenhoca cyber que mais preocupa a mente do homem do século 21 é o anárquico, caótico e ainda insondável computador-matriz chamado Internet.


