2000
O milênio ainda não virou, o século tão pouco. Mesmo assim, a passagem é significativa com estes números redondos de 2000 nos esperando como uma mulher generosa, um colo de mãe nos acolhendo depois de encararmos os vigorosos 1900 em que o Apocalipse pareceu se confirmar. A Humanidade desembarca mais triste no futuro depois de perder a inocência nas duas grandes guerras deste século. E tantas outras barbáries, chacinas, surtos, preconceitos, torturas impressos como uma grande ferida na História.
Apesar das cicatrizes, o momento é de recomeço mesmo porque, com toda a redondeza, 2000 se impõe para nos instalar num outro tempo com direito a planos porque o homem ainda sonha. E este, afinal, é o grande milagre da existência. A mãe que sonha com o filho que partiu ou nunca veio. O velho que sonha com a imortalidade, engolindo a pílula a cada noite de insônia. O solitário que sonha com o amor porque o amor é sonho e, quando dói, tem a textura da areia escapando entre os dedos.
Emoções humanas, demasiadamente humanas, embaladas uma a uma com delicadeza porque o futuro é de vidro, transparente só aos olhos dos videntes. Imortais mesmo são nossos desejos, desde que adquirimos a consciência da realização, friccionando pedras para o obter o fogo. E a partir disso, construímos, sucumbimos, mergulhamos, renascemos, voamos. A Humanidade é Ícaro queimando as asas.
Neste 2000 de formas tão generosas, desenho circular, rabiscos que parecem três grandes ovos prontos a explodir, impossível não se emocionar porque, afinal, são poucas as gerações que atingem a plenitude das datas e a redondeza dos números. 2000 merece ser celebrado como um rito coletivo de passagem. Célia Musilli





