200 anos de sedução
200 anos de sedução
Em 4 de junho de 1798 morria Casanova: um amante sofisticado e sem rival à altura
Mario Vitor Santos
Agência Folha
ReproduçãoRichard Chamberlain e Faye Dunaway em Casanova dirigido por Simon Langton em 1987Duzentos anos depois que a morte o encontrou isolado na Boêmia, em 4 de junho de 1798, longe dos salões nobres da França, Giovanni Giacomo Casanova poderia hoje festejar seu triunfo numa área que dominou com tanto carinho: a arte da sedução. Amadurecida a revolução da década de 60, formalizada a liberação da mulher e a igualdade entre os sexos, a eficiência na sedução é cada vez mais valorizada em todas as áreas, do marketing à administração de empresas, passando pela política. Ela requer sofisticação quase igual a que fez a fama do infalível cavaleiro de Seingault - título que recebeu do rei da França. Em dois séculos, não surgiu ninguém que rivalizasse com Casanova em delicadeza e elegância. Sendo a peregrinação uma característica de todo grande libertino, Casanova experimentou todas as mudanças. Foi seminarista, jornalista, escritor, diplomata, músico, empresário, espião, soldado, presidiário, bibliotecário e fugitivo. Mais rápida do que ele só a fama de conquistador, que invadiu os salões, excitando a curiosidade feminina e a contabilidade. Registros de cunho lendário chegam a lhe atribuir a conquista de até 5.575 mulheres. Isso significaria uma nova conquista a cada três dias, desde a adolescência até os 55 anos, quando o herói resolveu interromper sua trajetória de prazeres reais e passou a vivê-los apenas como representação, na redação de sua biografia.
Casanova jamais permitiu que houvesse sofrimento ao fim das conquistas - sofrimento seu, ao menos. Nas Memórias (Mémoires, editora Garnier-Flammarion, 1977), os casos terminam sempre por alguma razão fortuita. Em ritmo de aventura, não há tempo para a culpa e a dor. Há arte, por meio da qual o cavaleiro galante consegue aliar qualidades excludentes: elegância na fuga e prudência na paixão. A ele pode ser atribuída a criação de uma espécie de ética cavalheiresca nas rupturas amorosas, pela tentativa de diminuição do mal imposto à amante abandonada.
ReproduçãoDonald Sutherland vive Casanova sob a direção de Fellini em filme de 1976Diz o professor de filosofia da USP Renato Janine Ribeiro que Casanova protege o objeto da conquista, comprometendo-se com seu futuro mesmo no epílogo do amor. Procura, de alguma maneira, compensar a amada pela perda. É um amor característico da literatura do século 18, de um enamoramento alegre, expresso no próprio texto das Memórias. As rupturas são leves. O século seguinte, ao contrário, foi de paixões totais, dominado pela busca da verdade autêntica, a fidelidade absoluta aos sentimentos.
Em vários episódios de sua vida-livro, o Casanova ético, instrumento de uma masculinidade mais civilizada do que a dos embates medievais, providencia um novo homem para a ex-amante. Chega a conseguir que uma delas, seduzida por 600 francos em troca da virgindade, passe a viver no Palácio de Versalhes, na condição de amante de Luís 15. Depois de três anos, deixa ela a alcova real com uma pensão de 400 mil francos.
A mulher é apenas um objeto de desejo, sem que Casanova consiga estabelecer com ela qualquer relação permanente. A felicidade em Casanova é palavra que só consegue rimar com fugacidade, num contexto em que mesmo a paixão amorosa equivale à mercadoria de rápido consumo, ainda nos estertores do Antigo Regime.
No filme Casanova e a Revolução, de Ettore Scola, o galante libertino já decadente, embora ainda senhor de seus poderes, testemunha a Revolução Francesa. Diante de seu olhar, abre-se uma época em que o modelo da mulher cortesã deixa de reinar sobre o espaço mundano.
Casanova ocupou o ápice do liberal-individualismo amoroso. Como lembra a crítica Eliane Robert Moraes, professora de literatura da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, o libertino encerra um individualismo absoluto. Não é relevante saber quem são seus pais, nunca se saberá ao certo se teve filhos ou não.





