Hoje é dia de levantar um brinde em sua homenagem. Afinal, era o que ele mais gostava de fazer em vida – e não necessariamente apenas durante as datas comemorativas. Na passagem dos 20 anos de sua morte, Vinícius de Moraes (1913-1980) vai ter sua obra cantada em prosa e verso outra vez. Uma série de tributos celebra a data incluindo realização de shows e lançamento de livros e discos.
Reverenciado mais por músicos do que por poetas, Vinícius foi um dos precursores da Bossa Nova e parceiro genial de Tom Jobim, Carlos Lyra, Baden Powell, Edu Lobo, Pixinguinha, Chico Buarque, Francis Hime e Toquinho. Na música, foi um renovador recriando valsinhas, modinhas e o sambão. Na poesia, recuou para o soneto anos depois da Semana de 22 aposentar os quatorze versos.
É notória a figura do bon-vivant boêmio. ‘‘Vinícius não se contentou em escrever poesia, mas escolheu viver como poeta’’ – notou, certa vez, o poeta Ferreira Gullar. Viveu 66 anos, muitos dos quais dedicados a conquistar mulheres, as quais enalteceu em incontáveis imagens. Foi diplomata, cronista, crítico de cinema e poeta-compositor.
Ao saltar das páginas dos livros para as melodias da canção, abriu caminho para que se começasse a reconhecer os letristas de música popular como autores de fina estirpe. Tematizou o amor, o mar, a praia e a mulher que passa. É esse legado que volta à tona esta semana, especialmente no Rio de Janeiro, onde o poetinha morou quase a vida toda e foi encontrado morto em sua banheira na manhã do dia 9 de julho de 1980.
Os grupos MPB-4 e Quarteto em Cy, por exemplo, uniram suas vozes para levar ao palco o espetáculo ‘‘A Arte do Encontro’’ cujo repertório é inteiramente dedicado às canções de Vinícius. A temporada estreou ontem no Garden Hall com participação especial de Chico Buarque. Um CD, com o nome do show, deve chegar às lojas na próxima segunda-feira trazendo clássicos como ‘‘Anoiteceu’’, ‘‘Lamento’’ e ‘‘Gente Humilde’’.
Também sai dos fornos o CD ‘‘Tom Canta Vinícius Ao Vivo’’ num lançamento do selo Jobim Music com distribuição pela Universal. É uma homenagem emocionada prestada por Antônio Carlos Jobim ao seu amigo e parceiro Vinícius de Moraes, do qual recita poemas e interpreta gemas polidas da época da bossa nova. O disco foi gravado há dez anos no teatro do Centro Cultural Banco do Brasil, dentro do projeto ‘‘Ciclo Vinícius de Moraes - Meu Tempo É Quando’’.
Na ocasião, o maestro foi acompanhado por Paulo Jobim, Danilo Caymmi e Paula e Jaques Morelenbaum. O material reúne canções como ‘‘A Felicidade’’, ‘‘Ela é Carioca’’ e ‘‘Pela Luz dos Olhos Teus’’. Ainda na carona das celebrações, está prevista a produção de um CD no qual vários artistas recriam os sucessos do poeta sob o patrocínio do jogador Ronaldinho.
Intitulado ‘‘20 Anos Sem Vinícius’’, o disco terá toda a renda revertida para uma entidade que ajuda portadores de deficiência física. Mas além da seara musical, o mercado editorial também traz novidades na esteira da efeméride. É o caso do livro ‘‘A Arte do Encontro de Vinícius de Moraes’’ (Escuta), assinado pela historiadora Sonia Alem Marrach e que traz o subtítulo ‘‘Poemas e Canções de uma Época de Mudanças (1932-1980)’’.
No volume, a autora analisa as tensões entre os escritos do poeta e a época em que foram gestados mostrando como sua visão de mundo registrada em versos, letras, crônicas e textos para o teatro revelam muito dos costumes, condutas e mudanças de mentalidade coletivas ocorridas no país durante o período focalizado.
‘‘Quando se fala em Vinícius de Moraes’’ – escreve ela – ‘‘logo se pensa na vida olimpiana do poeta, nos seus nove casamentos, nas suas mulheres, nas histórias da sua vida privada. Mas este livro não trata da vida interessantíssima do poeta, das mulheres com as quais se casou. Vamos falar da sua obra poética e musical; daquilo que ela nos diz sobre o seu tempo’’.
Com outra abordagem, o festejado livro ‘‘Noites Tropicais’’ também transporta os leitores para a época de Vinícius. Nelson Motta, que veio lançá-lo em Curitiba na última quinta-feira, dedica um capítulo do volume ao ‘‘inesquecível verão de 1963’’ quando começaram as ‘‘viniçadas’’. As ‘‘viniçadas’’ eram festas realizadas geralmente na casa do poeta regadas a uísque, violão e canções da nata da bossa nova.
Não era qualquer um que emprestava seu nome para festas. Tinha que ser bom de copo. Um brinde ao cara.

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