Ela tinha em um mesmo olhar a doce face da rebeldia e o amargo sorriso da perversidade. Era um anjo inquieto, assim como James Dean e Marlon Brando também o foram. Foi a garota triste em ''Juventude Transviada'', a ingênua em ''Rastros de Ódio'', a sedutora em ''Esta Mulher é Proibida'' e a sensível em ''Clamor ao Sexo''. Foi, acima de tudo, Natalie Wood, o último símbolo da rebeldia que mudou Hollywood e o mundo nos anos 50.
Nascida em 20 de julho de 1938, em San Francisco, foi batizada como Natalia Nikolaevna Gurdin - era filha de emigrantes russos. Sua mãe, Maria Kuleff, antiga bailarina clássica, acabou projetando na filha todos os seus anseios frustrados. Natalie fez então sua estréia em película aos quatro anos, em 1943, em ''Happy Land'', de Irving Pichel. Um filme modesto, que estava sendo rodado em Santa Rosa, próximo à moradia da atriz.
A partir dessa produção, sua mãe passou a atuar como agente de Natalie, firmando contratos e mais contratos para a filha que despontava ao estrelato.
Entre esse primeiro papel e a personagem Judy de ''Juventude Transviada'' passaram-se doze anos e vinte e cinco produções nada memoráveis. Se não teve grandes diretores nessa primeira fase, trabalhou com grandes intérpretes - Orson Welles, Barbara Stanwyck, Rex Harrison, James Stewart, Jane Wyman e Bette Davis.
Um dos primeiros fatores que marcaram a vida misteriosa da atriz ocorreu nessa época. Foi uma profecia revelada por uma cartomante - Natalie iria namorar o 'mundo inteiro' e teria de tomar cuidado com as águas escuras.
Em 1955, quando filmavam o registro mais profundo sobre as idiossincrasias da adolescência, ''Juventude Transviada'', todos apostaram em um namoro com James Dean. Mas foi o diretor outsider Nicholas Ray que seduziu a garota - ele com 43 anos e ela aos 16.
Vieram então as obras-primas em que Natalie trabalhou. Como Debbie Edwards em ''Rastros de Ódio'' (56), de John Ford; Wilma Dean Loomis em ''Clamor ao Sexo'' (61), de Elia Kazan; Maria em ''Amor, Sublime Amor'' (61), de Robert Wise; e Alva Starr em ''Esta Mulher é Proibida'' (66), de Sidney Pollack. Uma lista selecta, mas que mostra o melhor da atriz em toda sua carreira.
Em contrapartida à onda que assolou Hollywood por aquela época, Natalie não seguia nenhum ''método'' para atuar. Inicialmente sua mãe frequentava os sets de filmagem e a ajudava. Certa vez, para chegar às lágrimas, a mãe da atriz foi arrancando aos poucos as asas de uma borboleta. Logo Natalie desenvolveu um estilo próprio, em que extraía de seu olhar e de seu corpo tudo o que a personagem poderia passar ao público.
O trabalho com Nicholas Ray foi fundamental nesse aprendizado. O cineasta costumava definir a sétima arte como ''a melodia do olhar''. Ele sabia que em uma tela grande a expressão facial diz muito mais que qualquer diálogo, e foi essa qualidade que distinguiu Natalie de suas companheiras na época. Ela tinha um olhar triste, uma beleza incompleta, que pedia explicitamente ao público - por favor, me salvem!
Essa doce melancolia teve um fim trágico há exatos vinte anos. Durante as filmagens de sua última película, ''Brainstorm'', e a bordo de seu iate Splendor, Natalie teve uma discussão regada a álcool com seu marido, o também ator Robert Wagner. Na manhã seguinte ela apareceria afogada em águas escuras...
Foi uma noite silenciosa em que seu olhar não mais percorria a câmera como o pintor que admira sua recente criação. O cinema perdia o olhar mágico de uma atriz que preservou à sétima arte sua melhor atribuição - a capacidade de criar mitos em uma época tão vazia de heróis. Natalie nunca recebeu o Oscar (foi indicada três vezes), mas permanece para o público como um sonho, interrompido há duas décadas, e que eternamente poderá ser revisitado por meio de suas películas.

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