O legado que Mazzaropi deixou para a cultura brasileira ainda está por ser descoberto. Amácio Mazzaropi (1912) morreu há exatos 20 anos, vitimado por um câncer na medula, deixou 32 filmes como herança. Ele se tornou um caso único no cenário cinematográfico tupiniquim, ao enricar sob a esfige de um caipira de camisa xadrez, calças remendadas estilo ‘‘pula brejo’’, botinas de cano curto, chapéu de palha e paletó apertado. Imortalizou Jeca Tatu, personagem criado por Monteiro Lobato em 1919, que se metia em encrencas, fugia do trabalho e era esperto o suficiente para se safar das brigas.
Jeca inspirou um caipira por vocação, filho de imigrantes italianos. ‘‘Comecei por brincadeira. Gostaram, bateram palmas e fui continuando. É isso minha profissão: sou caipira’’, revelou Mazzaropi ao relembrar seu início. Aos 14 anos era ajudante do renomado faquir Ferris, artista circense engolidor de vidro. Para quem começou a carreira alimentando um magricela com vidro moído, isso já era sinal que futuro reservava algo inusitado. Em 1940 montou o grupo ‘‘Teatro de Emergência’’, em Jundiaí, e viajava pelo interior de São Paulo dando vida ao capiau Jeca.
A Cia. Cinematográfica Vera Cruz abriu a porteira para ele, convidando-o para o filme ‘‘Sai da Frente’’. Seu nome ainda apareceu em outras fitas da Vera Cruz, até que em 1958, vendeu carro e casa, montou a PAM Filmes (Produções Amácio Mazzaropi) e rodou ‘‘Chofer de Praça’’. Com o filme pronto, falta dinheiro para fazer as cópias. Consegue um carro e sai pelo interior afora fazendo shows até conseguir arrecadar a quantia necessária. O puritanismo se instalou nas telas brasileiras. Daí em diante a máquina de fazer filmes só fez retratar um Brasil rural de gente feiosa e de boa índole.
Jeca, o caipira de fala arrastada, tímido, mas cheio de malícia, arrastou multidões aos cinemas. A PAM realizou, entre outros, ‘‘As Aventuras de Pedro Malasartes’’, ‘‘Tristeza do Jeca’’, ‘‘Um Caipira em Bariloche’’, ‘‘O Jeca Macumbeiro’’, ‘‘Jeca Contra o Capeta’’, ‘‘Jeca e Seu Filho Preto’’. Deixou inacabado ‘‘O Jeca e a Maria Tomba Homem’’. Mazzaropi lançava seus filmes sempre em 25 de janeiro, aniversário de São Paulo, e no cine Art-Palácio.
Mas se nas telas ele dava vida a um sujeito sem perspectivas e sem credibilidade, Amácio Mazzaropi era o oposto. Foi o único cineasta a possuir um estúdio exclusivo e bem equipado, contando até com 20 suítes para hospedar artistas e técnicos. Em Taubaté rodou os filmes da PAM. Reinvestia tudo o que ganhava em cinema e chegou a fazer dois filmes por ano. O sucesso de público de seus filmes se deu, em grande parte, porque Mazzaropi encarnava o sertanejo honesto, respeitador e simplório sentimental. Sua fase áurea de produção, ainda encontrava um público também ingênuo, num país com a maioria da população de origem rural, saudosa das prosas simples. ‘‘Mazzaropi é uma categoria à parte, tem um público fiel. É como o Coríntians. Jogou, tão lá. Não adianta falar bem ou falar mal’’, gabava-se.
Dentre os poucos momentos em que o público brasileiro respondeu favoravelmente aos apelos da cinematografia nacional podem-se incluir as chanchadas da Atlântida, aos filmes de Mazzaropi e as aventuras de Renato Aragão em ‘‘Os Trapalhões’’. Se por um lado ele era a preferência nacional, construindo um verdadeiro império, a crítica praticamente ignorava sua obra. ‘‘Só me interessa fazer filmes para o povo, de maneira que ele saia satisfeito do cinema’’, justificava-se.
Fica milionário e paralelamente produz leite também, sendo um dos maiores fornecedores da empresa Leites Paulista. Mazzaropi nunca se casou, mas teve um filho adotivo, Péricles, que o ajuda na produção dos filmes. O público acreditava que ele era casado com a atriz Geni Prado, eterna esposa do caipira nas telas. O império que construiu é dilacerado pelos herdeiros após sua morte, com todos os seus bens indo à leilão, inclusive os filmes. O Hotel Fazenda Mazzaropi continua existindo. No local funciona o Museu Mazzaropi com um acervo de mais de 6.000 peças.
Nas locadoras, por sorte, a maior parte dos filmes do maior comediante brasileiro pode ser encontrada. Na tevê, o Canal Brasil exibe todo sábado filmes do comediante. No dia 16, às 13h30, a atração é ‘‘Nadando em Dinheiro’’ (1952), único filme em que ele faz um personagem milionário. No dia 23, o canal exibe ‘‘Candinho’’ e dia 30 é a vez de ‘‘Fuzileiro do Amor’’.

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