Revista de poesia dura pouco. Foi justamente para inverter essa fama - comum em alguns meios literários - e divulgar a produção dos poetas do interior de Minas Gerais que o advogado Guido Bilharinho se lançou em um projeto independente, no segundo semestre de 1980, publicando o primeiro exemplar de ‘‘Dimensão’’. A revista era semestral, tinha 32 páginas e deveria durar até 1990.
Mas o projeto cresceu, tomando proporções que o editor não imaginava. Hoje ‘‘Dimensão’’ chega ao 27º número completando 18 anos de circulação ininterrupta com colaboradores internacionais e um formato que mais parece livro. A revista vai ser publicada até o ano 2000, quando completará 20 anos e será reavaliada por seu criador.
‘‘A publicação surgiu de uma necessidade de espaço para publicar poesia brasileira. Gosto de escrever e editar, desde o ginásio mexia com jornais e suplementos’’, comenta Guido Bilharinho, em entrevista feita por telefone.
André-SP/ReproduçãoPoema visual de Zhô Bertholini/SantoApós o lançamento, ‘‘Dimensão’’ foi se desenvolvendo a cada número. O crescimento fez com que a revista ganhasse periodicidade anual, para que houvesse mais tempo para sua elaboração. ‘‘Ela foi adquirindo novas seções, como traduções bilíngues, poesias visuais e abordagens de aspectos específicos da poesia’’, acrescenta o editor.
O número 27 também trouxe novidades. Além de espaços para haicais e epigramas, a revista traz traduções inéditas, como dez poemas do livro ‘‘Le Partis Pris des Choses’’, de Francis Ponge, traduzidos pela primeira vez no Brasil pelos poetas Carlos Loria e Alberto Muller Jr. A nova edição da revista, com 194 páginas, também traz vários poemas visuais impressos em cores em papel couchê - anteriormente eram publicados em preto-e-branco.
É só dar uma folheada em ‘‘Dimensão’’ para conferir a abrangência que a publicação tomou. O número 27 traz textos de escritores de todo o Brasil, além de países tão diversos como Argentina, Angola, Portugal, Itália, Espanha, Chile, Uruguai, Rússia, Estados Unidos, França, Alemanha, Japão e Venezuela. A revista chega ainda até a África do Sul, Austrália, Áustria, Bélgica, Bolívia, Bulgária, Cabo Verde, Canadá, China, Colômbia, Coréia do Sul, Costa Rica, Cuba, Dinamarca, El Salvador, Emirados Árabes, Equador, Estônia, Finlândia, Grã-Bretanha, Grécia, Guatemala, Guiné-Bissau, Havaí, Holanda, Honduras, Hungria, Indonésia, Irlanda, Islândia, Israel, Iugoslávia, Macau, Malta, México, Moçambique, Nicarágua, Noruega, Nova Zelândia, Peru, Polônia, Porto Rico, Quênia, República Dominicana, República Tcheca, Romênia, São Tomé e Príncipe, Suécia, Suíça e Tailândia.
Tudo graças a uma enorme rede de correspondência desenvolvida por Guido Bilharinho ao longo dos anos - um volume de cartas tão grande que se tornou difícil de administrar. ‘‘Já no terceiro número recebemos colaborações de Portugal, depois as remessas foram aumentando, foi chegando muito material e a coisa deslanchou. Hoje recebo colaboração de lugares que nunca ouvi falar, e mando a revista para endereços de mais de 500 periódicos de todo o mundo, é um gasto que fica mais caro que o preço da produção’’, ressalta.
Os custos são reduzidos pela venda, mas há investimento do editor: ‘‘Eu acabo colocando algum dinheiro, porque distribuo a publicação via aérea para mais de 20 países. É só prazer, o resto é ônus. Eventualmente, a prefeitura daqui me ajuda. Como o volume dos exemplares aumentou muito, eu gasto mais, pois não tenho recursos para administrar tudo isso’’, afirma. Guido Bilharinho tem dúvidas se aceita ou não convênios com órgãos interessados: ‘‘Se eu fizer um convênio para bancar a infra-estrutura, tenho medo de perder a independência’’.
A linha editorial também foi mudando com os anos. Do modernismo - tendência inicial do periódico - a publicação passou pelo concretismo até chegar aos poemas visuais: ‘‘A revista foi avançando, fui estudando, conhecendo melhor, e o visual também melhorou muito’’, acrescenta Bilharinho.
O processo resultou numa revista experimental, voltada para a poesia contemporânea. ‘‘Eu publico poesia atual, não fico repetindo aquilo que já foi publicado em décadas passadas. A própria revista se fez comigo e vice-versa, eu acerto e erro sozinho dentro da minha linha editorial’’, argumenta.
Com o grande volume de correspondência, o editor pretendia aumentar o número de páginas, mas o preço do correio influenciou na decisão. Se a revista passasse de 500 gramas, o valor para enviá-la ao exterior ficaria em R$ 16,00 por exemplar - ‘‘Dimensão’’ é vendida por R$ 12,00.
O advogado reclama também da falta de atenção de alguns órgãos da imprensa: ‘‘Os jornais do Rio de Janeiro e de São Paulo não dão cobertura para a revista, senão ela já teria estourado. Se eu colocar ‘Dimensão’ na banca ou na livraria, não vende. Os professores de literatura brasileira tinham que estar atrás deste material, mas eles não estimulam a discussão - com algumas exceções, obviamente’’.
Após o ano 2000, o advogado pretende reavaliar a revista e decidir entre a continuidade ou extinção. O número 27 de ‘‘Dimensão’’ traz 130 textos e visuais de 109 autores, e o exemplar pode ser adquirido por R$ 12,00 por cheque ou vale postal pelo Instituto Triangulino de Cultura, caixa postal 140, CEP 38001-970, Uberaba, Minas Gerais. Mais informações pelo telefone (034) 312-1122.

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