Louise Cardoso, que há anos tinha o desejo de levar um de seus espetáculos ao Festival de Curitiba, realiza esta vontade hoje, com a apresentação de ''Mãe Coragem e Seus Filhos'' na Mostra de Teatro Contemporâneo. Após uma temporada no Rio de Janeiro, a Capital terá a oportunidade de conferir o projeto pessoal da atriz, que celebra 30 anos de carreira.

A comemoração é dupla, pois o espetáculo também marca os 20 anos da Armazém Cia. de Teatro, fundada em Londrina, mas com sede no Rio de Janeiro há quase dez anos. No começo desse mês, o grupo lançou o livro ''Espirais'', que registra sua trajetória.

O texto, ambientado na Guerra dos 30 anos, é um clássico do dramaturgo Bertold Brecht, escrito em 1939, quando se iniciava a Segunda Guerra Mundial, mas está longe de ser datado. ''A peça fala sobre intolerância, é extremamente atual'', explica Louise Cardoso, que comenta mais sobre o espetáculo na entrevista a seguir:

FOLHA2 -Foi você quem procurou o grupo Armazém para realizar o espetáculo ''Mãe Coragem e Seus Filhos'' ou foram eles quem te convidaram?
Louise Cardoso -Fui eu quem tive a idéia. Sempre gostei deste texto. Esperei a época de ficar na idade da personagem para interpretá-la. Inscrevi o projeto da peça em um edital da Petrobras. Depois que ele foi aprovado, chamei o Paulo de Moraes para dirigir o espetáculo. Ele leu e aceitou. Em seguida, eu queria chamar o Armazém Cia. de Teatro para trabalhar. Eles têm subversão. No começo houve um pouco de resistência por parte do Paulo, mas ele acabou concordando.


Por que a preferência pelo Armazém Cia. de Teatro?
Tinha que ser o Armazém devido à complexidade do texto, que exigia um grupo coeso, inteirado, disciplinado e com bons atores. O Paulo exigiu algumas condições. Uma delas foi um período de quatro meses de ensaio. A peça precisava de uma concepção. Nesse tempo descobrimos qual era. ''Mãe Coragem e Seus Filhos'' é um texto maravilhoso, mas enorme. Você precisa descobrir o jeito de contar a história.


Como foi o trabalho de preparação nestes quatro meses?
Passamos dois meses fazendo exercícios para descobrir a concepção. Até lemos teorias sobre Bertold Brecht, mas sem compromisso, foi mais para nos auxiliar. Neste período descobrimos nossa linguagem. Nos dois meses seguintes ensaiamos com cenário, feito pelo Paulo e pela Carla Berri. Foi a partir daí fizemos um levantamento cena por cena, chegando aos 12 quadros em que se divide a peça.

Bertold Brecht escreveu o texto quando a 2 Guerra começava. Houve alguma adaptação para o Brasil?
Não. Ele escreveu naquele período, mas a peça se passa durante a Guerra dos 30 anos. Não fizemos adaptações para o Brasil, e ela também não tem cara de se passar em nenhum país em especial. É um espetáculo atemporal e ''aespacial'', sem tempo nem espaço definidos. Há uma Guerra Santa entre católicos e protestantes na história, mas não sabemos como ou qual é este conflito. Há uma carroça da cena é um avião tombado, que remete a uma guerra.

Como foi a recepção do espetáculo no Rio de Janeiro?
A recepção foi maravilhosa, acima das expectativas. Ficamos em cartaz por quase três meses, de quinta a domingo, no Centro Cultural Banco do Brasil, no Rio. Foram 60 apresentações. Como o preço era barato, os mais variados públicos foram assistir. Gente da favela Jacarezinho, os ''ratos'' de cinema que assistem a tudo, executivos de terno e gravata, todo tipo de público. Teve até executivos petistas que compararam ''Mãe Coragem'' ao PT, e acabaram batendo boca com petistas roxos que também foram assistir ao espetáculo.

Esta será a primeira apresentação fora de sua cidade. Qual a expectativa?
A expectativa é grande. Sou fã do Festival de Curitiba, que tem uma grande importância para o teatro, é um evento onde podemos ver novas tendências. Eu sempre quis levar um espetáculo meu para o festival. Acho que Curitiba vai se identificar bastante com o festival, pois é uma uma cidade que tem uma ligação maior com a família do que o Rio de Janeiro. Curitiba é mais mãe e filho. O Rio é sem pátria, é côrte. Estou muito animada.

Você já veio a Curitiba para o festival?
Estive em Curitiba em 1998 ou 1999 para uma leitura do texto ''O Bote da Loba'' com a atriz Cristina Pereira. Era um texto do Plínio Marcos, que estava vivo na época. A apresentação causou muito frisson, pois só as mulheres poderiam assistir. Depois da leitura, por exigência do autor, que estava vivo na época, deveria ocorrer um debate sobre masturbação. Muitos maridos revoltados estavam tentando entrar à força no teatro. Até hoje esta peça continua inédita, não passou das leituras. Aproveitei e fiquei uma semana em Curitiba para ver o festival.


O Armazém Cia. de Teatro nasceu em Londrina e agora volta ao Estado para se apresentar. Como eles receberam a notícia?
Eles vibraram. Mesmo com o cachê menor, eles estão felizes. A companhia completou 20 anos no ano passado e todos estão super-animados. Alguns até foram para Curitiba antes.


SERVIÇO
- ''Mãe Coragem e Seus Filhos''
Quando - Hoje e amanhã, às 20h30
Onde - Teatro da Reitoria, Rua XV de Novembro, 1299
Quanto - R$ 30 e R$ 15 (meia)
Mais informações - www.festivaldeteatro.com.br

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