No dia 30 de janeiro é comemorado o Dia do Quadrinho Nacional. Foi neste dia no ano de 1869 que Angelo Agostini publicou o primeiro capítulo de "As Aventuras de Nhô Quim", considerada por Antônio Luiz Cagnin "a primeira novela-folhetim em quadrinhos de que se tem notícia".

Processo Cabrião: charge de Angelo Agostini publicada no 'Cabrião' nº 6 em 4 de novembro de 1868
Processo Cabrião: charge de Angelo Agostini publicada no 'Cabrião' nº 6 em 4 de novembro de 1868 | Foto: Reprodução



Angelo Agostini nasceu em 8 de abril de 1843 em Vercelli, região de Piemonte, na Itália, mas há relatos de que poderia ter nascido na Cidade de Fermo, em 12 de novembro de 1840. Com a morte do pai Antonio Agostini e as constantes viagens da mãe, a cantora lírica Raquel, Agostini foi morar com sua avó na França, onde estudou Belas Artes. Chegou ao Rio de Janeiro em 1859 onde sua mãe se apresentava num dos teatros da corte.

Depois de trabalhar como capataz na construção da ferrovia Mauá-Raiz da Serra a Juiz de Fora (MG), mudou-se para São Paulo, onde foi fotógrafo retratista. Em 1864 com Sizenando Nabuco de Araújo - irmão de Joaquim Nabuco - e Luiz Gama fundou o "Diabo Coxo." Com vida curta, mas com boa repercussão, o semanário foi cancelado em dezembro de 1865. Uma edição publicada pela Editora da Universidade de São Paulo em 2005 resgatou as edições conservadas na Biblioteca Municipal Mário de Andrade, de São Paulo.

Em setembro de 1866, com Américo de Campos e Antônio Manoel dos Reis, Agostini lança "O Cabrião." Uma charge desenhada por ele na edição de 4 de novembro foi alvo do primeiro processo judicial movido contra uma "estampa" no Brasil. Consta que o "Processo-Cabrião" perdeu-se, mas, tem partes publicadas no livro Histórias da História de São Paulo, de Raimundo de Menezes (Melhoramentos, 1954). "Este grotesco processo, enfezado e ridículo desde seu nascimento, findou-se por uma sentença de absolvição", comemoram os editores na edição de 16 de dezembro. Em 2000, "O Cabrião" também foi resgatado numa edição impressa numa parceria entre a Fundação Editora da UNESP e a Imprensa Oficial do Estado de São Paulo. Este periódico deixou de ser publicado um ano depois do início das suas atividades.

Capa da Revista Ilustrada nº 498 comemorativa à Abolição da Escravatura no Brasil
Capa da Revista Ilustrada nº 498 comemorativa à Abolição da Escravatura no Brasil | Foto: Reprodução
Capa da Revista Ilustrada nº 518 na qual Angelo Agostini é retratado por Pereira Neto
Capa da Revista Ilustrada nº 518 na qual Angelo Agostini é retratado por Pereira Neto | Foto: Reprodução



Com o encerramento de "O Cabrião", Agostini retorna para o Rio onde passa a colaborar com "O Arlequim." Com o seu padrasto, o jornalista português Antônio Pedro Marques de Almeida, lança "A Vida Fluminense" em janeiro de 1868. E foi em "A Vida Fluminense" nº 57, em 30 de janeiro de 1869, que iniciou a publicação da série "As Aventuras de Nhô Quim", ou "Impressões de uma Viagem à Corte", que mostra um homem simples do interior, filho único do rico Quim, abismado com a cidade grande.

Cagnin, um dos fundadores do Observatório de Histórias em Quadrinhos, da Escola de Comunicações e Artes da USP, considera Agostini um dos pioneiros na produção de Histórias em Quadrinhos mundial. Foi Agostini "quem traçou, de semana em semana, o retrato do Brasil político e social, legando-nos o mais importante, e talvez único, documento iconográfico do Segundo Império", escreveu Cagnin na Revista Phenix, em 1996.

Agostini conjugava arte e política. Em 11 de junho de 1870 em "A Vida Fluminense" nº 128 uma charge sua retratando um homem negro escravizado, que ao retornar condecorado da Guerra do Paraguai encontra a sua mãe sendo açoitada, denuncia o paradoxo social e político daquele momento brasileiro.
Em 1876 Agostini cria a "Revista Ilustrada" onde permanece até 1888, embora a revista continue sendo publicada até 1898. Um dos registros mais importantes da "Revista Ilustrada" se dá na edição nº 498, lançada em 19 de maio de 1888: uma capa de Agostini festeja a Abolição dos Escravos e homenageia seus companheiros de luta. Monteiro Lobato, em "Ideias de Jeca Tatu", escreveu que a coleção da "Revista Ilustrada" é "um documento histórico retrospectivo cujo valor sempre crescerá com o tempo tal qual aconteceu com os desenhos de Debret e Rugendas."

Ao deixar a "Revista Ilustrada", por motivos políticos e pessoais, incluindo uma complicada situação conjugal, Agostini vai para a Europa. Ao retornar ao Brasil, em 1895 lança a sua última revista, a "Don Quixote", que deixa de circular em 1903. O ilustrador colaboraria ainda com "O Malho", revista que gostava de ver rodar nas modernas máquinas de impressão, e com "A Gazeta de Notícias."
Agostini também participou da criação da famosa "O Tico-Tico", de longa duração: 1905-1977. É de sua autoria o logotipo da revista.

Agostini naturalizou-se brasileiro em 1888, quando também recebeu o título de Cidadão Brasileiro. Cagnin afirma que Agostini produziu "mais de 5.000 páginas em 55 anos de militância na imprensa ilustrada". Em 1984 a Associação dos Quadrinhistas e Cartunistas de São Paulo instituiu o dia 30 de janeiro como o Dia do Quadrinho Nacional. Angelo Agostini faleceu em 23 de janeiro de 1910.

O capítulo I de 'As Aventuras de Nhô Quim', publicado em 'A Vida Fluminense',em 30 de janeiro de 1869
O capítulo I de 'As Aventuras de Nhô Quim', publicado em 'A Vida Fluminense',em 30 de janeiro de 1869 | Foto: Reprodução



Serviço:
Para baixar "As Aventuras do Nhô Quim" em PDF confira o link http://www2.senado.leg.br/bdsf/item/id/521244

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