15 ANOS SEM TRUFFAUT
Paulo Polzonoff
De Curitiba
Especial para a Folha2
François Truffaut era o mais popular cineasta francês das décadas de 60 e 70. Seus filmes de temas cotidianos levavam milhares de espectadores às salas de exibição francesas. No exterior, seus filmes tinham mais fama do que renda. Naquele tempo longínquo, porém, isso não importava tanto. Era o tempo em que o cinema ainda inspirava algum tipo de atração aos intelectuais.
Filho único, Truffaut nasceu em Paris no dia 6 de fevereiro de 1932. Seu pai era arquiteto e sua mãe secretária. A família morava em Pigalle o bairro da zona boêmia de Paris. Foi aos sete anos que o menino pobre assistiu pela primeira vez a um filme, Paraíso Perdido, de Abel Gance. Aquele filme mudaria a história de uma vida que tinha tudo para dar errado.
François Truffaut teve uma infância difícil. Em decorrência disso, precisou sair da escola aos 14 para começar a trabalhar. Com esta mesma idade, já transformado em um amante do cinema, fundou um cine-clube, o que despertou a atenção do já consagrado crítico André Bazin, que passou a protegê-lo e financiá-lo. Mas neste mesmo ano de 1942 Truffaut foi preso e mandado para o Centro de Observação para Meninos Delinquentes de Villejuiff, onde permaneceu por um ano. A liberdade de Truffaut não duraria muito. Em 1951 ele deserta do Exército e é preso novamente. Só três anos mais tarde é que Truffaut começa a se dedicar plenamente à vida (sem arroubos de rebeldia) e ao cinema. André Bazin consegue para ele um emprego na revista Cahiers du Cinema , o mais importante espaço de debate sobre a sétima arte. Foi na edição de janeiro de 1954 que o jovem Truffaut escreveu seu artigo mais famoso. Intitulado Uma Certa Tendência no Cinema Francês, este artigo esboçava já o que mais tarde viria a se tornar a Nouvelle Vague, movimento que pretendia a restauração do cinema de autor.
Passando da teoria à prática, em 1954 Truffaut faz sua primeira incursão na direção com o curta Une Visit. Quatro anos mais tarde ele rodaria seu primeiro longa, Os Incompreendidos, no qual aparece pela primeira vez seu alter ego, Antoine Doinel. Os Incompreendidos teve quatro continuações, sempre com o mesmo ator, Jean-Pierre Leaud, no papel de Doinel.
Em 1961 François Truffaut dirigiu aquele que muitos consideram sua obra-prima, Jules e Jim - Uma Mulher para Dois, que conta a história de um triângulo amoroso que atravessa incólume os conturbados anos da Primeira Guerra Mundial.
Apesar de fazer parte da Nouvelle Vague, Truffaut era, ao contrário dos demais cineastas do movimento, muito bem-sucedido. Seus filmes faziam sucesso entre os intelectuais e os espectadores ocasionais da mesma forma. Diferentemente de seus companheiros da Nouvelle Vague, Truffaut não era muito dado a envolvimentos políticos. O que contribuiu, em parte, para uma certa hostilização de que foi vítima nos anos mais radicais da década de 70. Truffaut nunca escondeu sua predileção por filmes mais românticos, à moda de Renoir, seu ídolo. É por isso que os temas mais recorrentes de sua obra são as mulheres, as crianças e o amor desesperado.
Apesar de uma tentativa fracassada de aproximação com o cinema americano, em 1966, com o filme Fareinheit 451, baseado no romance homônimo de Ray Bradbury, foi com um filme tipicamente americano, A Noite Americana, que fugia de seus conceitos estéticos consolidados ao longo da carreira, que François Truffaut ganhou o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 1973. A Noite Americana é metacinema (cinema sobre a arte de fazer cinema) de primeira qualidade, mas está vários níveis abaixo de Jules e Jim ou de qualquer um dos filmes sobre a vida de Antoine Doinel, seu alter ego.
Em 1984, aos 52 anos, François Truffaut morreu no Hospital de Neuilly, vítima de um câncer no cérebro. O cinema francês nunca mais seria o mesmo.
FILMOGRAFIA
ReproduçãoCena de A Noiva Estava de Preto, filme de Truffaut feito em 1967ReproduçãoO Último Metrô foi produzido em 1980 por Truffaut- Os Incompreendidos (1958)
- Atirem no Pianista (1960)
- Jules e Jim/Uma Mulher para Dois (1961)
- Amor aos 20 Anos (1962)
- Antoine e Collete (1962)
- Um Só Pecado (1964)
- Fareinheit 451 (1966)
- A Noiva Estava de Preto (1967)
- Beijos Proibidos (1968)
- A Sereia do Mississipi (1969)
- O Garoto Selvagem (1970)
- Domicílio Conjugal (1970)
- As Duas Inglesas e o Amor (1971)
- Uma Jovem Tão Bela Como Eu (1972)
- A Noite Americana (1973)
- A História de Adele H. (1975)
- Na Idade da Inocência (1976)
- O Homem que Amava as Mulheres (1977)
- La Chambre Verte (1978)
- O Amor em Fuga (1978)
- O Último Metrô (1980)
- A Mulher do Lado (1981)
- De Repente, Num Domingo (1983)





