Com US$ 26 milhões em apenas sete dias, arrecadados nas bilheterias de 2,7 mil salas, ‘‘102 Dálmatas’’ é um dos atuais campeões no box-office americano. Não deve chegar aos US$ 136 milhões obtidos há quatro anos pelo seu antecessor, ‘‘101 Dálmatas’’, mas é uma das apostas garantidas da Buena Vista, empresa do grupo Disney. No Brasil o filme chega para abrir as férias escolares. É o primeiro trunfo da garotada, que vai ter um dezembro carregado. Além de mais esta centena de cachorros, vem aí, já na próxima semana, ‘‘O Grinch’’, com Jim Carrey. Xuxa reaparece nas telas com filme novo a partir do dia 15. E ‘‘A Fuga das Galinhas’’, a partir de 22, é animação que vai fazer a cabeça de todos, crianças e adultos.
A origem de tudo, como devem saber os muitos membros da sociedade protetora dos animais cinematográficos, está no adorável clássico do desenho animado de 1961, ‘‘101 Dálmatas’’, um dos carros-chefes da zoofilia disneyana, ao lado de ‘‘A Dama e o Vagabundo’’. Em 1996, executivos da Buena Vista, sempre à cata de velhas novidades, prepararam uma adaptação ‘‘de carne e osso’’ daquele velho roteiro.
O resultado foi uma refilmagem com considerável grau de inspiração, sustentada principalmente por um sólido alicerce: a vilã Cruella De Vil, exótica criação de Glenn Close. Naquele argumento, a pérfida Cruella se esmerava em malvadezas para raptar os cães do título e transformá-los em casaco. Ao final, a punição: prisão para ela, sob aplausos da platéia mirim.
Agora, decorridos quatro anos, Cruella está de saída, em liberdade condicional. Enquanto cumpria pena, nossa anti-heroína passou por uma espécie de terapia pavloviana para retrabalhar reflexos. Em miudos: nossa odiada malévola está aparentemente curada e caindo de amores quando vê um cão, principalmente os sem-teto. Mas esta lua de mel dura pouco: ao primeiro toque de um sino (nada menos que o Big Ben) e lá está ela novamente, descondicionada, tramando uma boa malvadeza, no caso um traje que requer um exemplar a mais.
Enquanto na versão 96 havia o original animado como suporte de roteiro, nesta sequência é quase tudo novo, com a adição de personagens como o extravagante desenhista de moda Monsieur Le Pelp (Gerard Depardieu, sob um vestuário semi-medieval que às vezes evoca seu recente Obelix, com toques de Flash Gordon). Há ainda novos personagens sobre quatro patas, como um cãozinho chamado Oddball, sempre deprimido porque nasceu sem as tradicionais pintas, marca registrada da raça.
O filme reuniu recursos formidáveis, como a mansão de Cruella com seus cômodos e passagens secretas. Há momentos de quase inspiração, mas ‘‘102 Dálmatas’’ fica a meio caminho. O problema com o filme – e é pena, porque é praticamente o único –, contornado em ‘‘101’’ pela habilidade do roteirista John ‘‘Esqueceram de Mim’’ Hughes, é que o diretor Kevin Lima tenta mas não consegue transformar os cachorros em personagens tão importantes quanto os humanos em cena. Quando se imagina estar diante das aventuras de alguns amáveis filhotinhos, na maioria do tempo ficamos diante de intrigas entre adultos e dos esquemas de vilania de uma dupla reciclada de outros filmes. Inclusive do citado ‘‘Esqueceram de Mim’’.
Um dado curioso e complementar. Logo após o sucesso de ‘‘101’’, houve nos Estados Unidos uma corrida às casas de animais. Eram crianças levando para casas seus filhotes de dálmatas, um raça dócil, brincalhona e que exige retribuição, em carinho e atenções. Tempos depois, passada a febre do ‘‘cãozinho de estimação’’, o resultado foram animais devolvidos ou abandonados. Ao final deste ‘‘102’’, os créditos alertam que somente pessoas preparadas para atender todas as necessidades do animal devem se habilitar. Mas pensando bem, o filme está longe de deixar as crianças loucas por um mascote.

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