100 km de caves subterrâneas
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 07 de agosto de 2002
Nathalia Molina<br> Agência Estado 
Clóvis I, rei dos francos, é batizado e coroado por Saint-Remi. A história muda seu curso, e nasce o que viria a se tornar no futuro a França católica. O soberano, que havia conquistado a antiga Gália (corresponde aproximadamente ao atual território francês), se converte ao cristianismo no fim do século 5. Onde? Em Reims.
Famosa pela produção do nobre espumante com Epernay e Châlons-en-Champagne forma o ''triângulo sagrado do champanhe'' , Reims tem muita história para contar. Ali, na primeira metade do século 15, Joana D'Arc liderou os franceses contra os ingleses na Guerra dos Cem Anos. Também foi lá, a 146 quilômetros de Paris, que Napoleão Bonaparte teve sua última vitória antes da queda em Waterloo: a Batalha de Reims (1814).
Outro momento importante foi a rendição da Alemanha na Segunda Guerra, em maio de 1945. O local da assinatura do documento, então quartel-general de Eisenhower, virou museu. Localizada em Marne (um dos quatro departamentos que compõem a região de Champagne-Ardenne), Reims foi muito destruída nas duas Guerras Mundiais. Os prédios reerguidos têm estilo clássico e algo de art déco. O destaque arquitetônico, porém, fica por conta da Catedral de Notre-Dame, perfeito exemplar gótico decorado com 2.300 estátuas, das quais 56 representações de reis franceses. Não deixe de ver o anjo sorridente, à esquerda da entrada.
Só pela estética a igreja já convida a uma visita. Há ainda o valor histórico. Foram coroados na catedral 25 reis franceses. No tempo de Clóvis I, o atual prédio não existia. Começou a ser erguido em 1211. Mas a prática da coroação seguiu ali, séculos depois, até Carlos X, o último monarca a participar do ritual na igreja, em 1825.
Hoje, objetos que remetem a esse tempo podem ser vistos no Palácio de Tau (construção de 1690 em formato de T), onde o monarca passava a noite anterior à coroação. O palácio, assim como a Abadia de Saint-Remi, outro ponto a ser visto, é considerado Patrimônio Mundial da Humanidade pela Unesco. Com 2 mil anos de existência, a Porta de Marte remete ao Império Romano, quando Reims era capital e tinha quatro portas iguais a esta que restou.
O caminho pela história de Reims segue no subsolo. Imensos túneis, abertos na época dos romanos para se proteger de invasões, se transformaram em caves de champanhe. Ao todo, são 100 quilômetros de adegas subterrâneas 40 km em escavações originais e o restante já feito para ser cave. Lembre-se de levar casaco ao visitar um espaço desses no subsolo. A temperatura ambiente congela qualquer ser humano vestido para o verão europeu.
Com 200 mil habitantes, Reims é uma cidade grande cercada por vinhedos. Os pontos altos ali são a Catedral de Notre-Dame e as caves. Até vale caminhar pelas ruas do centro. Mas guarde seu fôlego para Troyes ou Langres, menores e mais charmosas. Sente-se num café e observe o movimento com uma taça de espumante na mão.
Melhor ainda: escolha uma das várias opções gastronômicas que Reims oferece. Se puder pagar alto pelo requinte e excelente sabor, não hesite. Dirija-se ao restaurante do chefe Gerard Boyer no Hotel Les Crayères, castelinho da rede Relais & Chateaux. Três estrelas no guia Michelin, tem um menu que é uma verdadeira fábrica de sonhos. Experiência inesquecível jantar por lá, pela comida e pela pompa.
Para donos de orçamento mais modesto e paladar exigente, Le Vigneron é a dica. Há 25 anos, o chefe Hervé Liégent mistura ingredientes típicos para criar delícias. Seu gosto por produtos regionais transcende a cozinha. Nas paredes e teto do restaurante, ele exibe 700 dos 1.800 pôsteres de sua coleção, com cartazes de 1850 a 1950. Adivinhe o tema. Champanhe. Poderia ser outro?


