Há dez anos, morria em Buenos Aires, um ano após ter sofrido um derrame em Paris, o compositor, instrumentista, maestro e arranjador argentino Astor Piazzolla. Reverenciado e odiado pelo mesmo motivo - novas propostas musicais para tratar a linguagem do tango -, ele ganha homenagens no mundo todo, desde séries de shows-tributos na capital argentina até citações em festivais europeus. No Brasil, marcam a data as apresentações do Quinteto Suárez Paz e um ciclo de concertos no Centro Cultural Banco do Brasil, em cartaz no Rio, que chega a São Paulo em agosto.
Não é a primeira vez que o quinteto liderado por Fernando Suárez Paz apresenta-se no Brasil - esteve por aqui em 1997, na época dos cinco anos da morte do compositor. Hoje, Paz e seus companheiros, ao lado da cantora Beatriz Suárez Paz - sua mulher -, abrem, no Teatro Colón, de Buenos Aires, a série Astor Triunfal, dez dias de homenagens ao compositor. No fim de semana, viajam ao Brasil. Paz trabalhou com Piazzolla. Começou em 1978, quando abandonou o posto de violinista da Orquestra Filarmônica de Buenos Aires e aceitou o convite do compositor para se juntar ao Quinteto Nuevo Tango, com o qual tocou até sua extinção, em 1988. Dez anos, 18 discos gravados em diferentes partes do mundo. ''Convivi com o Piazzolla responsável, acelerado, trabalhador, diferente daquele do início, jovem. Sua concentração no trabalho me chama a atenção até hoje'', lembra ele. Com a morte de Piazzolla, Paz recebeu de sua viúva, Laura Escalada, a incumbência de montar um quinteto encarregado de executar a obra do compositor de Adios Nonino. ''Fazemos esse trabalho com gosto, utilizamos a mesma formação de seu quinteto, seus arranjos e instrumentos originais, divulgando tanto suas obras mais conhecidas quanto aquelas menos interpretadas.'' Tarefa, aliás, para uma vida inteira. Paz não fala em números exatos, mas sabe que ainda não chegou a interpretar a totalidade da obra de Piazzolla - aproximadamente 3.500 obras, o que o coloca, segundo a Sociedade de Autores e Compositores de Paris, no mesmo patamar de Mozart. ''Tocamos no mundo todo e vemos que ele é um fenômeno mundial, um clássico universal que nasceu do tango.'' A paixão por Piazzolla já motivou trabalhos de grandes músicos, desde o jazz de Keith Jarrett e Chic Corea, até o piano de Daniel Barenboim. O violinista russo Gidon Kremer, em álbum dedicado ao compositor, falava da fascinação por uma música ''que não é intelectual, que, mais do que sensualidade, irradia paixão''.
Além de Kremer, Emanuel Ax e Yo-Yo-Ma são destaques de uma lista interminável de intérpretes e admiradores que se colocaram a serviço de sua música. Para Paz, no entanto, os brasileiros - como o Duo Assad - possuem uma conexão especial com a música de Piazzolla. ''Os brasileiros sempre gostaram muito mais dele do que os próprios argentinos.''
Os motivos são difíceis de precisar, misturam-se por uma identificação com o espírito, as bases da música, mas Paz aponta para uma explicação talvez mais racional, o fato de que Piazzolla ainda está entalado na garganta dos ''tangueiros ortodoxos'', ainda um tanto ofendidos com o flerte do compositor com o mundo da música clássica e do jazz. ''Sempre estiveram em guerra com Piazzolla, não aceitavam seu trabalho, apesar de ele estar sempre calcado nas bases e raízes mais profundas do tango.''
''Ele uniu as formas clássicas com as origens tangueiras e, assim, acabou por abrir um leque inimaginável de possibilidades'', diz a pianista Lilian Barreto, artista brasileira que une à sua arte o talento para a produção de projetos como o ciclo ''Piazzolla - Tango e Paixão'', do CCBB, atualmente em cartaz no Rio, e com estréia prevista em São Paulo para 6 de agosto, com apresentação do pianista Arthur Moreira Lima.
Lilian reuniu um elenco de artistas que são herdeiros diretos de Piazzolla - como o músico de bandônion Daniel Binelli, que trabalhou e aprendeu o que sabe com o compositor - ou herdeiros por convicção, como ela própria. Seu primeiro contato verdadeiro com sua obra, aliás, deu-se em apresentações com Binelli, em especial o espetáculo Piazzolando (que virou disco, editado pela Kuarup). Além de Moreira Lima, Binelli e Lilian, o ciclo também trará a São Paulo o Trio Blas Rivera (que interpreta uma obra de Piazzolla inédita no País, ''Bayres 72''), a Orquestra Oscar Durám (que toca, entre outras composições, ''Allegro Tangabille'' e ''Decarissimo''). No Rio, também participam da programação o instrumentista Rodolfo Mederos e o Quarteto Amazônia, que lançou recentemente um disco (''Adiós Nonino, Quarteto Amazônia toca Astor Piazzolla'', também da Kuarup), dedicado ao compositor.
SERVIÇO: Confira as apresentações do Quinteto Suárez Paz em São Paulo: dias 9 e 10, às 21 horas. De R$ 5,00 a R$ 15,00. Teatro do Sesc Vila Mariana. Rua Pelotas, 141, tel. (11) 5080-3000; dias 11 e 12, às 21 horas. De R$ 5,00 a R$ 15,00. Teatro do Sesc Ipiranga. Rua Bom Pastor, 822, tel.(11) 3340-2000;
dia 13, às 22 horas e dia 14, às 13 horas. R$ 15,00 (cons. mín.). Bar e Restaurante Tarsila/Hotel Intercontinental. Alameda Santos, 1.123, tel. (11) 3179-2555; dia 14, às 19 horas. Entrada franca. Auditório Símon Bolívar/Memorial da América Latina. Avenida Auro Soares de Moura Andrade, 664, tel. (11) 3823-4600.

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