10 anos sem Dalí
PUBLICAÇÃO
sábado, 23 de janeiro de 1999
ReproduçãoSalvador DalíTelma Elorza e agências 
Exatos 10 anos após sua morte - no dia 23 de janeiro de 1989 - , Salvador Dalí continua surpreendendo o mundo. Um showman assumido, Dalí está de novo na pauta do dia, com o lançamento mundial do filme Babaouo, cujo texto foi escrito por ele; e de uma biografia, Shameful Life Of Salvador Dalí. Além disto, a descoberta - e sua consequente.... publicação no jornal La Vanguardia, de Barcelona - de um texto inédito do artista, na última semana, fez esquentar as homenagens mundiais em torno do pintor catalão.
Babaouo foi lançado em dezembro do ano passado, na cidade natal do artista, Figueras, na Catalunia. O filme teve adaptação do original de Dalí, escrito em 1932, e direção de Manuel Cussó-Ferrer, em conjunto com o grupo teatral Comediants. A história de Dalí, que rendeu um longa de 80 minutos, é ambientada na Europa da década de 30, em um país que vive o pesadelo da guerra. O personagem central, Babaouo - interpretado por Hugo de Campos -, dá vida à loucura surrealista de Dalí. O jovem sai em busca de sua amada Matilde - vivida por Cristina Peaget - , presa num castelo de Portugal. Ao longo desta jornada, Babaouo passa por situações absurdas, próprias da mente distorcida do autor. E o final do filme, claro, mostra a estranha visão que o artista tinha sobre o amor.
ReproduçãoCriança Geopolítica Assistindo ao Nascimento do Novo Homem, 1943Já a biografia Shameful Life Of Salvador Dalí (A Vida Vergonhosa de Salvador Dalí), com 760 páginas, foi escrita pelo irlandês Ian Gibson, autor também da biografia de Gabriel García Lorca, e pode ser adquirida pela Internet, no endereço http://www.amazon.com. O livro apresenta um perfil desconhecido do artista.
Segundo Gibson, Dalí teria sido um adolescente problemático e complexado. Talvez por isso tenha escrito aos 16 anos a seguinte frase em seu diário: Vou ser um gênio. Talvez incompreendido e desprezado, mas um gênio grandioso. Profético. Mas a novidade maior que o autor apresenta seria um suposto conflito de personalidade do pintor catalão.
ReproduçãoRetrato de Gala, 1935Segundo o autor, Dalí escondia sua timidez atrás de afirmações do tipo: Sou um gênio, o maior pintor vivo; sou divino, monarquista, franquista, adoro o dinheiro, amo os dólares e Gala, a minha única mulher e amante, com quem perdi a virgindade aos 25 anos de idade. Para o biógrafo, esta poderia ser uma forma encontrada por Dalí para mascarar o que sentia.
E sustenta sua tese com o próprio trabalho do artista. Em boa parte de seus quadros em que há cenas de sexo, essas são testemunhadas por um jovem que esconde seu rosto: um motivo recorrente, inédito na história da arte, algo desprezado pelos críticos, acredita o escritor. Não conheço outro pintor que tenha expressado com tanta veemência a sua vergonha diante da sexualidade, diz Gibson.
Gibson pode estar certo. Mas, se vivo, Salvador Dalí adoraria tudo isto. Controverso, Dalí era adepto do falem mal, mas falem de mim. E os críticos o faziam, sem reservas nas língua. Em toda sua vida, o artista nunca foi uma unanimidade. Talento incomparável para uns e embusteiro para outros, Dalí inspirava tanta desconfiança no mesmo tanto que era capaz de surpreender com sua genialidade ao pincel.
Chamado de louco, pertubado, infantil, nenhuma ofensa, porém, era capaz de amenizar a arrogância de seus famosos bigodes, a marca registrada conhecida por milhões de pessoas que nunca foram a um museu. Dalí não se importava com as críticas, protegido por uma cantilena de auto-elogios ligeiramente absurdos. Picasso foi o gênio do trabalho, eu sou o gênio da pintura, costumava dizer, com um certo fundamento. Mesmo quem o desprezava não pode deixar de admitir que ele criou uma multidão de imagens estonteantes. Algumas, como os relógios moles em A Persistência da Memória (1931), já fazem parte da consciência coletiva da cultura mundial.
Salvador Dalí foi um grande artista. Também foi um grande promotor de si mesmo. A combinação destes dois fatos foi uma fórmula irresistível para o sucesso. Ele foi um dos raros artistas que conseguiram desfrutar de sua fama e dinheiro ainda em vida. Talvez por estar sempre antenado e aberto às novidades. Nos oito anos que passou na América, na década de 40, Dalí descobriu toda a potencialidade que a mídia - então ainda no começo - poderia oferecer em termos de promoção pessoal. Naqueles dias, tornou-se uma supercelebridade, encenando happenings muito antes da invenção deste termo, e eventualmente até aparecendo em comerciais de TV. Ele e sua mulher/musa Gala viveram como popstars, antes de se saber o que era um popstar.
Espanhol, nascido em 11 de maio de 1904, na pequena Figueras. De certo modo, o mundo interior de Dalí era Figueras, a planície de Ampurdán onde ela se localiza, uma aldeia de pescadores, logo atrás das montanhas, e o vizinho Port Lligat onde ele construiu seu lar. São estes os cenários da grande maioria de seus trabalhos, até mesmo quando o fundo é ocupado por uma crucificação ou por uma guerra civil.
Embora tenha adquirido mais do que uma cota de neuroses infantis e fixações sexuais, Dalí vinha de uma família sólida de classe média. Seu pai, o tabelião de Figueras, Dom Salvador Dalí, era um homem forte que influenciou profundamente o jovem Dalí, mas de uma forma negativa. Dalí passou grande parte da vida em eterna reação contra tudo o que seu pai defendia. A morte da mãe, em 1921, foi uma das experiências mais traumáticas de sua vida. Porém, foi a irmã, Ana Maria, a figura feminina mais importante para o jovem pintor. Ana Maria serviu de mão para o irremediavelmente intratável e sexualmente reprimido Dalí, e foi seu único modelo feminino até ele encontrar sua futura esposa, Gala Eluard. A partir daí, Gala assumiu também o papel de modelo exclusivo. Ana Maria nunca a perdoou por isto.
Amigos ricos e cultos incentivaram o jovem Dalí e o mantiveram extraordinariamente bem informado sobre os desenvolvimentos no mundo das artes. Ele já tinha uma bagagem artística muito boa quando foi estudar pintura em Madri (1921/26), e o período teve mais importância pelas amizades que fez com o poeta Lorca e o diretor de cinema Luis Bunuel, com quem filmou o famoso Un Chien Andalou (1929).
A partir de 1927, Dalí foi sendo cada vez mais atraído pelo Surrealismo. O movimento, sediado em Paris, era influenciado pelas teorias de Sigmund Freud e criava obras ditadas pelo inconsciente através dos sonhos, com a escrita automática e outros procedimentos voltados para libertar o artista da tirania da racionalidade.
Em 1929, com a ajuda da mulher que seria sua amante, esposa, zeladora e musa até o fim, o pintor se estabeleceu como membro do grupo. Talvez tenha sido Gala, com sua ajuda e fé no gênio dele, a causa do sucesso de Dalí em vida, apesar de todo o seu talento. Por outro lado, foi Gala, a gananciosa e extravagante, que o incentivou a comercializar e até banalizar sua arte. O próprio Dalí promoveu um culto exagerado a ela, cujos diversos aparecimentos em suas obras culminaram em imagens quase deificadas.
Dalí pintou suas obras mais famosas, e provavelmente as melhores, na década de 1929-39, usando um método crítico-paranóico que ele mesmo imaginou.
Este método envolvia várias formas de associações irracionais, notadamente imagens que variavam conforme a percepção do observador, imagens múltiplas que pudessem ser lidas de diferentes maneiras. É o caso, por exemplo, do óleo sobre tela Mulher Adormecida, Cavalo e Leão Invisíveis. A técnica acadêmica perfeita e a precisão fotográfica - que a maioria dos artistas de vanguarda contemporâneos considerava fora de moda - continuou o acompanhando.
Dalí viveu o bastante para se tornar um ícone da geração hippie e criar um monumento pessoal fantástico na forma do Museu Dalí em Figueras, todo um ambiente repleto de objetos e murais bizarramente criativos. Após a morte de Gala, em 82, perdurou virtualmente como um espectro vivo até morrer. Está enterrado em seu museu na terra natal, da qual virtualmente nunca saiu.
Pesquisa de texto: Vida e Obra de Dalí, de Nathaniel Harris, Editora Ediouro, 1995.


