10 ANOS SEM BETTE DAVIS
Francelino França
De Londrina
Os incríveis olhos de Ruth Elizabeth Davis se fecharam para sempre em 6 de outubro de 1989. Bette Davis era muito mais que seus olhos inesquecíveis: azuis, grandes e redondos. Alguns a consideravam uma verdadeira força da natureza e a elegeram como a atriz mais importante de Hollywood. Afinal, em 81 anos de vida, dedicou 56 à carreira de atriz, tendo realizado 104 filmes.
Em Escravos do Desejo (1934), foram lançados os alicerces daquilo que formaria a lenda Bette Davis: uma mulher independente e agressiva, sem papas na língua ou pudor nos gestos. Os depoimentos que deixou e as inúmeras biografias que surgiram levando seu nome confirmam a postura de mulher que não levava desaforo para casa.
Bette Davis forjou na indústria de Hollywood o papel da mulher profissional. Essa foi uma das maiores contribuições de Miss Davis para o cinema. Antes dela, as mulheres eram consideradas enfeites e valorizadas apenas pelo glamour, interpretando belas sofredoras. Ela lutou contra o poderio dos homens dos grandes estúdios, nocauteando-os muitas vezes. Estabeleceu um novo patamar de atuação no cinema. Nenhuma mulher fez mais para o cinema do que ela.
Hoje, 10 anos depois da morte da malvada mais famosa do cinema,
órfãos de Bette Davis em todos os cantos do mundo rendem homenagens à diva. Os viúvos e viúvas da primeira-dama das telas, como a professora e cinéfila Fernanda Jiran, em Londrina, acreditam que a ligação com um ídolo está acima da compreensão, existindo até uma ligação espiritual (apesar de todos os souvenirs que colecionam). Mas, fundamentalmente, era a personalidade forte, perseguindo incansavelmente a realização no trabalho, que arrebata os fãs. Para eles, Bette Davis soube magnetizar de maneira quase hipnótica a verdadeira grandeza de um artista.
Ganhou um Oscar em 1935 por sua atuação em Perigosa, e outro em 38, por Jezebel. Mas foi injustiçada por não ter sido premiada em 1934, por seu papel em Servidão Humana, filme baseado no livro de Somerset Maugham em que ela própria fez questão de automaquiar-se para a cena da morte.
Minha primeira experiência em Hollywood foi um teste. Deite-se neste sofá, ordenaram. Eu deitei e, um após um, quinze homens subiram em cima de mim e fizeram cenas de amor comigo. Eu era uma garota tímida, fiquei apavorada.
Na Universal Pictures, ouviu de um dos donos do estúdio: Você tem tanto sex appeal quanto uma porta. Em setembro de 1930, um diretor interrompeu uma sessão de testes na Universal para pedir a Bette que fizesse a gentileza de erguer o vestido um pouco acima do joelho. Queremos ver as pernas, disse o diretor. O que as minhas pernas têm a ver com o meu talento?, questionou. Levantou um centímetro de cada vez até aparecer o joelho, como uma garota puritana.
Seu envelhecimento nos filmes forma um capítulo à parte, tendo sido considerado perfeito em trabalhos como Estranha Passageira, Vaidosa, e, principalmente, O Que Teria Acontecido a Baby Jane?, dirigido por Robert Aldrich, em 1962. Depois de filmar A Malvada (1950), dirigido por Joseph Mankiewicz, ela viveu 10 anos negros na carreira. Sem contrato com nenhum estúdio, e imensamente irônica, ela colocou um anúncio no jornal nos seguintes termos: Artista procura emprego. Americana, divorciada, mãe de 3 filhos (15, 11 e 10). 30 anos de experiência como atriz de cinema. Ainda em condições de movimentar-se e mais afável do que dizem os boatos. Deseja emprego em Hollywood. (Fartou-se da Broadway). Respostas para Bette Davis. a/c Maritn Baum. G.A.C. Dá referências.
Sou um exagero, meu entusiasmo é exaustivo. Cheguei a fazer 14 filmes em dois anos, às vezes três ou quatro ao mesmo tempo, comentou Bette Davis, numa de suas entrevistas, reclamando do esquema massacrante a que ela e seus colegas eram submetidos naqueles tempos. Era constantemente chamada de vulcão benevolente em constante erupção. Mas do trabalho em si ela não reclamava. Tanto é que nunca pensou em aposentadoria e, a partir dos 78 anos, passou a atuar como protagonista num seriado de tevê.
Não me aposentarei enquanto tiver minhas pernas e minha maleta de maquiagem, prometeu em 1972 e cumpriu. Longe das câmeras eu sempre fui uma mulher feliz, eu consegui continuar sendo um ser humano, simplesmente, apesar de todas as honrarias incríveis que tive. Em sua lápide, Bette Davis solicitou que escrevessem: Ela fez tudo da maneira mais difícil.Atriz eternizada como a malvada do cinema morreu em 6 de outubro de 1989, depois de realizar 104 filmes
ReproduçãoBette Davis como Margô Channing em A Malvada (1950): personagem inesquecívelReproduçãoBette Davis no filme Jezebel (1938)





