Nelson Sato
De Londrina
Tocar blues no Brasil é quase sempre uma proeza. Manter-se fiel a ele, alheio a modismos musicais do mercado, revela-se uma audácia. Abraçar o evangelho dos velhos mestres do Delta do Mississipi a partir de uma cidade do interior, então, parece um milagre.
É esse milagre que será celebrado hoje, a partir de 20h30, no palco do Teatro Zaqueu de Melo no show comemorativo dos dez anos da banda londrinense Blue Up. Reduzida a um duo, com Alcides Caminhoto Júnior na guitarra e violão e Marcelo Mendonça nos vocais e gaita, a banda vai contar no palco com os músicos de apoio Lincoln Andrade no baixo e Karin Melo na bateria.
O repertório do show vai reunir músicas inéditas, canções do CD lançado pelo grupo no final do ano passado e clássicos do gênero. Eles avisam: ‘‘Não vamos tocar blues texano, que é mais alegrinho e se aproxima do rock. Acho que muitos músicos ficam aí nesse meio termo, sem passar a emoção do blues. Nossa linha é a da tradição’’ – salienta Mendonça. Entre os mestres homenageados na noite figuram Muddy Waters, Peter Green e Willie Dixon.
A banda vendeu 800 cópias do CD, que teve tiragem de mil exemplares, desde o seu lançamento em novembro. No disco, Caminhoto assina todas as faixas tocando violão, guitarra, slide, piano, contrabaixo, bateria e sintetizador. Ele é o único remanescente da formação original. A banda, vale lembrar, experimentou um entra-e-sai interminável de integrantes ao longo da década.
Atravessou também várias temporadas sem lugar para se apresentar. Na última segunda-feira, por exemplo, os dois músicos preparavam-se para tocar num bar ‘‘cultural’’, mas acabaram impedidos pela vizinhança. Esse tipo de incidente, comum em Londrina, tem intensificado os contatos da banda com produtores de shows de outras cidades. ‘‘A Internet tem ajudado muito nisso’’ – conta Caminhoto. Plugada na rede, a banda já dispõe inclusive de uma página (www.members.tripod.com/Blue-Up) contendo fotos, release, agenda de shows e arquivos (trechos de músicas para os formatos MP3 e wave).
Em julho, eles foram convidados para tocar no Centro Cultural Vergueiro, em São Paulo, dentro da programação do ‘‘Terça-Blues’’, um projeto temporariamente suspenso por falta de verbas e que estava virando um ponto de encontro dos blueseiros paulistanos. Nas duas próximas semanas, eles fazem quatro shows em Botucatu. O Blue Up resiste.

mockup