O CINÉFILO FIEL -

007: o fator humano por trás do número

Depois de muitos títulos só com violência, sexo, exotismo e ironia, a saga James Bond fecha o ciclo humanizando um personagem por muito tempo apenas uma fria máquina de matar

Carlos Eduardo Lourenço Jorge
Carlos Eduardo Lourenço Jorge

Quando o agente do MI6 se identificava, marcando território ao longo dos 25 longas-metragens com o lendário cartão de visita “Bond, James Bond”, o público nas salas se dividia. Claro. A ala feminina era (literalmente) possuída pelo macho alfa em cena (a sobrancelha erguida de Connery incendiava o escurinho do cinema), enquanto os homens incrementavam a testiculina. Todos sabiam que ele era “o” 007, aquela máquina mortífera com o registro de série com licença para matar. O número. Mas, e por trás daquele número, quem era o homem ? Haveria ali um ser humano ?    

 

"Sem Tempo Para Morrer": nova aventura de James Bond traz um personagem que mostra mais suas renúncias e seus medos
"Sem Tempo Para Morrer": nova aventura de James Bond traz um personagem que mostra mais suas renúncias e seus medos | Divulgação
 


A única vulnerabilidade do longevo Bond sempre foi ele mesmo – não aquele “double O seven” de série que, em “Sem Tempo para Morrer”, torna-se uma divertida anedota recorrente entre o aposentado e amargurado agente vivido por Daniel Craig e a nova 007/Nomi na pele negra de Lashana Lynch –, e em boa hora tornou-se a chave para justificar uma derradeira aventura, tão espetacular quanto trágica.


Nos cinco filmes (“Casino Royale”, “Quantum of Solace”, “Skyfall”, “Spectre”, “No Time to Die”) que representaram o canto de cisne do personagem interpretado por um Craig completamente à vontade nas fraquezas de Bond, anti-herói ferido e consciente de seus erros, ser vulnerável e deslocado que percorre a maioria dos cenários de sua vida/história/filmografia como alguém alheio ao presente e irremediavelmente ligado ao passado e ao medo do futuro, o que prevalece é o fator humano sobre tramas de apocalipse, vilões megalomaníacos, paraísos impossíveis e ficção científica de sujo realismo industrial.


O público que permaneceu fiel (e sobreviveu) ao personagem ao longo de seis décadas ao lado do personagem sempre teve a certeza de que Bond era infalível, que era uma lenda, quase um ser mitológico. Mas “No Time to Die”, co-roteirizado por uma mulher, Phoebe Waller Bridge (o talento das séries “Fleabag” e “Killing Eve”), trouxe à superfície seu lado mais íntimo, suas renúncias, seus medos.    



Estamos então diante de um filme com uma consciência de gênero muito mais, digamos, consciente ? Sem dúvida. As personagens femininas são o centro das atenções, desde o prólogo, dedicado a explicar o trauma de infância de Madeleine Swann (Léa Seydoux) e sua relação com o vilão Safin (Ramy Malek), a introdução de um novo 007 racializado, encarnado por Lashana Lynch, e a presença de uma Ana de Armas cuja presença na trama não é prejudicada por acrobacias sexuais (a sequencia na mortífera festa em Havana é uma delícia). As novas Bond-girls deixaram de ser objetos para se tornarem sujeitos ativos da ação. As regras do jogo cerebral da espionagem foram liquidificadas pelas regras dos sentimentos, do amor, do romance.


Aqui, a referência obrigatória é o universo do escritor inglês Graham Greene, justamente “O Fator Humano” e suas implicações éticas, universo que justifica esse “Sem Tempo para Morrer”: para além daquela missão suicida, do jogo das grandes potências e dos serviços secretos como bússola política e moral esfacelada, o espectador de 2021, ainda aturdido, é colocado diante da odisseia de um homem solitário que toda a sua vida esteve sozinho e que não consegue sustentar laços afetivos, que ele quer e precisa.


Este vínculo humano, que não deixa de ser uma máquina de matar quando necessário, mas que deixa 007 cuidar disso, é aquele que enfrenta seu pior inimigo: ele mesmo, além da organização Spectre ou o Lyutsifer Safin de Remi Malek (um replicante do vilão Dr. No de sessenta anos atrás).   


“Sem Tempo para Morrer”: drama de segredos, vingança, amor, ausências, abandono, renúncias, traições, sacrifícios, pecados e resgastes, toda aquela matéria prima do folhetim e também dos grandes épicos. É provido de uma épica estranha, e tem consciência disso, ainda carregando surpresas na manga. É filme alegremente espetacular, oferecendo, além da reflexão, toda a ação de um filme de 007, mas ainda melhor. Um bem orquestrado funeral.  E muita calma nessa hora, de elucubrar acerca do próximo 007. O assunto vai encher  telas e telas em branco.

Como você avalia o conteúdo que acabou ler?

Pouco satisfeito
Satisfeito
Muito satisfeito
Assine e navegue sem anúncios [+]

Últimas notícias

Continue lendo