Curitiba Um desses testes que se propõem a estudar a personalidade das pessoas simula uma situação limite. Imagine que a sua frente há um muro, qual seria a sua provável reação? Pularia, veria o que há atrás dele ou simplesmente não faria nada? A hesitação, embora por motivos bem reais para época, motivou a escritora Hilda Hilst a escrever o texto ''Rato no Muro'', em 1967. Em outubro deste ano, o núcleo de teatro do Ateliê de Criação Teatral (ACT), de Curitiba, realizou uma leitura dramática do texto, sob direção de Maurício Vogue. A leitura foi escolhida pelo projeto ''Dramaturgia Brasileira Contemporânea - Leituras Dramáticas e Encenações'', da Fundação Cultural, para ser levada ao palco. A estréia acontece hoje.
A peça traz no elenco as atrizes curitibanas Adriana Alegria, Cláudia Ortiz, Gabriela Haviaras, Giovana Soar, Gladis Tridapalli, Patrícia Ramos, Regina Bastos, Renata Bruel e Renata Hardy. Hélio Barbosa interpreta a madre superiora. A história se passa dentro de uma capela onde nove freiras e a madre superiora estão confinadas. No local elas rezam e confessam seus pecados, expondo suas personalidades conflitantes. A simples visão de um rato sobre o muro aproxima as freiras do mundo exterior, já que ele pode subir no muro e ver o que a elas é negado.
O texto faz uma analogia à Ditadura Militar, mas o diretor Maurício Vogue quis ir além na interpretação, tanto na leitura, quanto na montagem levada ao palco. ''Na leitura queríamos que o público ouvisse o texto e viajassem na sua própria história. Agora, no palco queremos a mesma coisa'', explica. O diretor esclarece que a abordagem à ditatura e ao militarismo não foi esquecida. ''Mas estamos falando também de um outro tipo de ditadura, imposta pelas próprias pessoas, para que elas pensem quais são as suas repressões, os seus problemas'', diz.
A encenação acontece em volta, sobre e sob uma mesa. As nove atrizes e o ator vestem um figurino básico, com cores escuras. ''O texto pede essa sobriedade'', diz. A estranheza fica por conta da sonoplastia criada por Andrei Mosqueto. ''A trilha é composta por ruídos, barulhos e variações de arranjos'', adianta o diretor.
Acostumado a trabalhar como ator em espetáculos adultos (assinou a direção de apenas outros três espetáculos adultos anteriores a ''Ratos no Muro'') e a dirigir espetáculos infantis, Vogue confessa que a missão de dirigir o texto de Hilda Hilst não foi exatamente ''tranquila''. ''O maior desafio foi tornar o texto verdadeiro. Ultrapassar a barreira do artificial'', analisa. O espetáculo fica em cartaz até 21 de dezembro, mas deve retornar o ano que vem para nova temporada.

Serviço
- ''O Rato no Muro'', texto de Hilda Hilst dirigido por Maurício Vogue. Estréia hoje no Ateliê de Criação Teatral (ACT), na rua Paulo Graeser Sobrinho, 305, em Curitiba. Em cartaz até 21 de dezembro, de quarta à sexta-feira e sábado e domingo às 19 e 21 horas. Entrada franca.

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