A MAIS ANTIGA PROFISSÃO
Mostrados em
Cannes, filme
de Taiwan e
independente
americano dão
enfoques
diferentes à
prostituição
Carlos Eduardo Lourenço Jorge
Enviado especial a Cannes
France PresseO diretor Hou Hsiao-Hsien e as atrizes do filme ‘‘As Flores de Shangai’’: uma abordagem refinada da prostituição
O amor no tempo das cortesãs. Assim pode ser definido ‘‘As Flores de Shangai’’, dirigido por Hou Hsiao-Hsien, conhecido como o mestre da nouvelle-vague taiwanesa e frequentador de Cannes desde 1988 - já levou um Prêmio Especial do Júri em 93, com elogiado ‘‘O Mestre das Marionetes’’. Ele agora volta à competição com um minucioso tratado sobre os bordéis de alto nível na China de fins do século XIX, suas prostitutas e seus ociosos frequentadores, também em busca de um clima de romance.
As flores do título eram as cortesãs das ‘‘Casas das Flores’’, situadas numa Shangai dividida em possessões estrangeiras. No enclave estabelecido século passado entre a Grã-Bretanha e a dinastia Qing, prostitutas recebiam altos funcionários do governo chinês, impedidos de frequentar os bordéis a elite masculina tinha como única alternativa as ‘‘Casas das Flores’’. E é no interior delas que o filme se detém. E como: em 124 minutos, Hou Hsiao-Hsien faz uma lenta, detalhadíssima radiografia do que eram aqueles locais. Um mundo fechado, com ritos, hábitos e linguagem muito próprios. Os homens visitavam as casas para jantar, fumar ópio, jogar mah-jong, se distrair e, claro, usufruir dos favores e do charme das mulheres. Na época, como deixam claro alguns sutis conflitos sentimentais, as prostitutas eram menos destinadas às práticas sexuais do que a aspirações românticas masculinas. Para satisfazê-las, os homens gastavam um bom dinheiro, muito tempo e atenção, e eram de uma assiduidade exemplar. ‘‘Flores de Shangai’’ não é apenas um belo testemunho - ainda que arrastado e um pouco repetitivo boa parte do tempo - de uma sociedade que desapareceu, mas também de certas verdades universais sobre as relações afetivas e sexuais entre mulheres e homens.
O segundo enfoque sobre a prostituição transpõe oceanos, dá um salto de um século e transfere o foco das atenções para a civilização ocidental. Mais precisamente para a Nova York de agora. O filme é ‘‘Claire Dolan’’, produção independente americana dirigida pelo jovem (33 anos) Lodge Kerrigan.
O personagem-título é uma imigrante irlandesa que ganha (bem) a vida como call-girl de luxo. É administrada pelo indefectível ‘‘pimp’’ ou cafetão. Logo no início, a mãe da moça morre e ela decide mudar de vida. Sai de Nova York, tenta morar sozinha um tempo, alimenta a esperança de ter um filho. Conhece um motorista de táxi com que mantém algo parecido com um romance. Mas deixar a velha vida é duro, principalmente porque ela ainda tem dívidas a pagar ao cafetão. Aos poucos, Claire se dá conta de que, o quer que tenha que decidir e fazer, tudo é mesmo por sua conta e riscos.
Nada de muito novo sob o sol, a não ser, talvez, a maneira de se produzir um filme off-Hollywood - ‘‘Claire Dolan’’ custou apenas 3 milhões de dólares. A história sobre as tentativas de redenção da moça é muito parecida com aquela que outro americano contou há 27 anos, ‘‘Klute - O Passado Condena’’, e que deu um Oscar de melhor atriz a Jane Fonda. Até um tímido ensaio de thriller é proposto por Lodge Kerrigan. Mas o filme não tem a mesma classe de seu inconfessado modelo original, e nem a atriz Karin Cartlige pode se comparar à Jane Fonda dos velhos e bons tempos.

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