''Sim, os meninos bonzinhos, capazes de pisar só à meia força uma barata, deixando-a apenas aleijada para depois chutá-la para a área cimentada nos fundos da casa, onde estaria sempre passando uma ou outra formiga carnívora, funcionando como exploradora. E os meninos, sentados no chão, observavam como aquelas formigas, depois de encontrar a barata e de examiná-la, voltavam às pressas para a boca do formigueiro situada numa brecha do cimento, onde penetravam, para logo depois sair dali um verdadeiro exército daquelas formigas avermelhadas, que chegavam até a barata esperneando de barriga para cima e se instalavam sobre ela, penetrando por todas partes de seu corpo, pisando-o, cortando-o, e a barata se debatia, estrebuchava, enquanto pedacinhos seus eram arrancados lentamente e levados para o formigueiro por pequenos grupos de formigas, sob olhar atento dos meninos, debruçados tão próximos sobre a cena que podiam ver a cabeça triangular da barata virando-se para um lado e para outro, com seus olhinhos, procurando uma saída, impotente na sua longa agonia, até que os garotos, saciados da própria crueldade, arranjavam alguma outra coisa para fazer, deixando a barata entregue a sua sina sem mesmo dar-lhe uma pisada de misericórdia , aquela barata entre todas as baratas, uma cena da natureza agora sem testemunho humano. (...)
As ratazanas eram diferentes; as ratazanas eram inimigas de respeito, e uma delas, em fuga, na disparada, cometera o erro de meter-se no compartimento cimentado que abrigava o medidor de gás da casa. Ali fora acuada pelo menino com o cabo de vassoura na mão. O menino prendera a barriga da ratazana contra a parede de cimento e, à medida que os órgãos do bicho eram espremidos, este mordia, na luta, entre guinchos terríveis, quase humanos, o cabo da vassoura, tentando, inutilmente, e também com as patas dianteiras, afastá-lo do seu corpo. A ratazana entendia tudo o que estava se passando e, enquanto já expelia um pouco de sangue pela boca, encarava o menino com um olhar de ódio tão intenso que metia medo no garoto e, se pudesse ser traduzida em palavras, talvez dissesse mais ou menos isso: 'Você está me matando, seu filho-da-puta, mas, se eu fosse maior, arrebentava você. Um olhar que até hoje aquele que foi o menino guarda consigo e pensa: naquele dia, naquele momento do mundo, existiu aquela determinada ratazana com ódio sendo morta e aquele menino matando-a, fascinado e com medo. E depois a ratazana apagou-se e não era mais nada.''
(Fragmento de ''Um Conto Obscuro'', texto que integra o livro ''O Vôo da Madrugada'' de Sérgio Sant'Anna)





