''Mas na verdade enquanto eu estivesse ali, parado, olhando aqueles dois afantasmados, eu estava pronto a me deter no tempo, a economizar de forma radical minhas batidas cardíacas, sem sempre mais um elemento da floresta, um corpo que não precisasse batalhar por mais um dia - e, quando despertasse novamente, nenhum desgaste das horas teria me marcado com seu ferro em brasa; aliás, minha cabeça teria idéias totalmente emancipadas das antigas, tudo me seria mais fácil, não teria receio do futuro, controlaria os infortúnios do acaso com a respiração no ritmo digno de um estóico, por onde escorregasse e evoluísse um ar tão qualificado quanto o desse bosque de Bellagio.''
***

''Eu tomo o que vejo qual em colheradas de uma sopa, agora estou eu e a criança indefesa, alguém me passa as ondas nutritivas sem que eu entenda nem ao menos o veja - , sabe que mais?, chuto uma lata só de raiva da balela com que explicam tudo, não importa, importa o trânsito entre a memória se formando e o que está prestes a ocorrer ali na bucha, parece que vivo nesse hiato, ao ocorrer a coisa ainda não a tenho o suficiente para socorrer-me em sua identidade, e depois é como se eu nunca pegasse o tempo a tempo, sempre é tarde para tanto, ele já mergulhou nas águas da memória, e aquilo que o complementará depois já estou vivendo sem saber, sempre achando que errei de capítulo, que estou fora de hora.''

(Fragmentos de ''Berkeley em Bellagio'' de João Gilberto Noll)

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