Não se pode negar coerência ideológica à neozelandesa Jane Campion. Depois de Um Anjo em Minha Mesa (90), O Piano (92) e Um Retrato de Mulher(96), novamente ela mergulha no turbilhão das almas femininas. Só que desta vez, em Fogo Sagrado (veja a programação de cinema na página 5), a diretora está de volta ao mundo contemporâneo, ao aqui e agora. O filme, que Jane escreveu a quatro mãos com a irmã Anna, competiu na seleção oficial em Veneza-99. Não levou nenhum premio. Não tinha porque.
Há muitas maneiras de passar batido por um grande argumento. Falta de coragem, ou miopia, ou ausência de recursos materiais. Falta de talento, é a mais comum. Não é o caso deste Holly Smoke. O que parece mais provável é que a essência do roteiro não passou para a tela. E aqui teríamos então a miopia. Segundo disse Anna Campion em entrevista coletiva ano passado em Veneza, queríamos abordar temas eternos e insolúveis: Deus existe? Ele é uma simples projeção das necessidades humanas? Perdidas as intenções, restou um filme estranhamente confuso.
A jovem e bela australiana Ruth (Kate Winslet) faz uma viagem a India e acaba se rendendo ao carisma de uma espécie de guru espiritual. E eis que Shiva, através do guia, abre no meio da testa da moça um terceiro olho, símbolo do conhecimento perfeito, e promete a ela o reino da felicidade eterna. Mas a família da jovem está atenta aos acontecimentos. Resgatada na Índia e levada de volta à Australia, é providenciada uma cura à base de desprogramação espiritual. Quem desembarca no continente australiano para cuidar do caso de Ruth é P. J. Walters (Harvey Keitel), especialista na matéria. Os dois se trancam num casa deserta nos confins do outback. Não é preciso o olho de Shiva para adivinhar que, a partir deste momento, vão rolar entre quatro paredes altas transas e altos papos esotéricos e carnais.
É justamente neste tête-à-tête que Fogo Sagrado deixa de lado o que potencialmente se desenhava na estrutura. Melhor se fosse uma sátira, assumida, e não um drama, envergonhado. Em essência o filme não é sobre cultos, lavagens cerebrais, famílias maluquetes e baboseiras espiritualóides. Na verdade Ruth e P.J. deveriam estar se batendo verbal e carnalmente em nome do milenar combate entre homens e mulheres, sobre o papel do sedutor e do seduzido, e afinal sobre quem é quem e quem faz o quê nesta batalha entre os sexos. Campion chega a ensaiar até o que seria uma saudável parábola feminista, mas logo retoma a entediante digressão mística e arrasta o filme para um turbilhão de confrontos entre o sagrado e o profano. De qualquer maneira, não é um filme que se possa chamar de inanimado no sentido literal de ausência de alma.
Em meio a rupturas de ritmo absurdas, é possível encontrar momentos de forte intensidade, exclusivamente por conta de Winslet. A musa de Titanic habita de corpo e alma seu difícil personagem. Keitel parece um tanto perdido numa composição que jamais se define satisfatoriamente. Talvez o que melhor ilustre esta performance desequilibrada seja a sequência em que P. J. perambula pelo outback de vestido e batom, como um passageiro que caiu do caminhão em Priscilla, a Rainha do Deserto.(C.E.L.J.)





