São Paulo, 02 (AE) - Um caso de amor, ciúme e morte em tempo de decadência. Se a definição vale alguma coisa para a grande estréia da semana, "De Olhos bem Fechados", legado de Stanley Kubrick, vale também para um modesto lançamento: "O Primeiro Apartamento", do ucraniano Igor Minaiev. Na época da estréia do filme, 1990, Minaiev seria chamado de soviético, pois a URSS continuava de pé, embora ruindo a olhos vistos. A perestroika, de Mikhail Gorbachov, havia aberto a fresta por onde o antigo regime iria escorrer pelo ralo. A antiga superpotência era uma crise só e é nesse ambiente confuso que a cabeleireira Nadia e o jovem Serguei vivem seu caso de amor terminal.
"O Primeiro Apartamento" é deliberadamente minimalista. Poucas locações, poucos personagens, realizado em preto-e-branco. Tudo se passa em São Petersburgo, Leningrado, na época. O pano de fundo político filtra-se discretamente. Aparece em algumas manifestações populares, em algumas cenas de rua, nos recortes de jornal colecionados por um vizinho de Nadia, tipo meio maluquete, porém lúcido, emblemático de uma época de divisão social.
Minaiev não faz filme político, no sentido estrito do termo. Conta uma história de amor, através da qual se insinua o momento político de uma potência que agoniza. No primeiro plano estão Nadia e Serguei. Ela é meio cabecinha-de-vento e acaba presa numa batida policial. Serguei está servindo no Exército e obviamente nunca viu mulher de perto na vida. Fica impressionado. Facilita a fuga da moça. Mais tarde, eles se reencontram e apaixonam-se. Vão morar juntos, a atração é grande
mas a repulsão também funciona.
Serguei é possessivo; Nadia acha-se livre. Dessa incompatibilidade de expectativas amorosas vêm os ciúmes e, com os ciúmes, o pior que pode acontecer a um casal, a oscilação brusca do amor ao ódio. "O Primeiro Apartamento" parece um tanto o mito de "Carmem" traduzido para o universo soviético. Mas no tom do relato não deixa de lembrar o belo e dilacerado "Táxi Blues", de Pavel Lounguine, com seus personagens demasiadamente preocupados em sobreviver com um pouco de felicidade para que possam perceber o mundo instável da política que se move sob seus pés.
Em meio ao caos, despontam cenas de um lirismo despojado. Como aquela em que Serguei lava as pernas da mulher com água quente, para descongelá-las do inverno de Leningrado. Dito assim parece nada, ou menos que nada. Na tela, e do jeito como é filmada, é de cortar o coração. Um belo filme se faz de momentos como esse.

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