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quarta-feira, 01 de setembro de 1999
Por Antônio Gonçalves Filho 
São Paulo, 02 (AE) - Stanley Kubrick sempre foi exigente ao escolher músicos para compor as trilhas sonoras de seus filmes. Tão exigente que, ao rodar "2001, uma Odisséia no Espaço", trocou o genial Alex North por uma seleção de autores eruditos de várias tendências e etnias. A sugestão teria partido do próprio North, que indicou alguns nomes a Kubrick quando o cineasta se mostrou insatisfeito com sua trilha. Desses, o diretor permaneceu fiel ao compositor Gyrgy Ligeti, nascido na Transilvânia em 1923 e autor de duas peças incluídas no clássico "2001", as espaciais "Atmosferas" e "Lux Aeterna".
É de Ligeti o tema de abertura e encerramento de "De Olhos bem Fechados", interpretado ao piano pelo jovem Dominic Harlan. Harlan era apenas um garoto quando Kubrick revolucionou o cinema de ficção com "2001". Não acreditou quando o cineasta
após um concerto, o convidou para tocar a peça de Ligeti, "Música Ricercata II". Ao contrário de "Atmosferas", não é uma obra marcada pela micropolifonia nem pela transformação contínua da matéria sonora. São nítidos os intervalos e harmonias. A metamorfose da "Música Ricercata" é determinada principalmente pela altura do som.
Misteriosa, a peça pontua a cena mais intrigante do filme, quando Tom Cruise recebe um aviso mortal na porta da mansão em que foi rodada a polêmica sequência da orgia. Outra grande presença na trilha sonora do filme é a do compositor russo Shostakovich (1906-1975). Como fez em "2001", Kubrick escolheu uma valsa - desta vez, não para marcar uma conquista espacial, mas para acompanhar a primeira traição do casal Nicole Kidman e Tom Cruise na sequência do baile de Natal. A composição circular de Shostakovich faz parte da "Suíte para Orquestra de Jazz", composta em 1934. Trata-se de uma justaposição conceitual.
A valsa tem o movimento da ronda amorosa schnitzleriana, da troca de casais que identifica uma de suas obras mais célebres, justamente "La Ronde", filmada por Max Ophuls. O contraponto dessa deliciosa valsa de Shostakovich é outra sequência de dança, desta vez a do macabro baile da máscaras. A autora é uma nova descoberta de Kubrick, Jocelyn Pook, compositora premiada que trabalhou com o cineasta inglês John Smith em "Blight". Jocelyn tem grupo próprio, o Pook Ensemble (violoncelo, violino, viola), que toca nessa sequência demoníaca e na do sonho de Nicole.
A sequência da orgia é quase uma missa negra, pontuada pela voz de um baixo que imita a de um muezin chamando os fiéis, paradoxo que transforma a peça musical num desconcertante exercício atonal. A trilha, disponível no Brasil pelo selo Warner, reserva ainda espaço para clássicos de Victor Young (When I Fall in Love), Duke Ellington (I Got it Bad) e Ted Shapiro (If I Had You), além da voz do cantor pop Chris Isaak (Baby Did a Bad Bad Thing) e uma versão de "Strangers in the Night" pela orquestra brega de Peter Hughes. As duas últimas participações, desnecessário dizer, revelam o refinado humor de Kubrick para contrapor o gosto da massa ao mundo exclusivo, escuro e pesadíssimo do austríaco Schnitzler.


