São Paulo, 02 (AE) - É uma pena que a Companhia das Letras não tenha conseguido resolver uma pendenga com a distribuidora Warner sobre a foto do filme "De Olhos bem Fechados" na capa do volume contendo o roteiro de Frederic Raphael e a novela de Arthur Schinitzler que deu origem à nova obra-prima de Stanley Kubrick. A edição está suspensa. Seria muito interessante ler o original e conferir a excelência da adaptação assinada por Raphael e pelo próprio Kubrick. Eles respeitaram todos os incidentes da "Traumnovelle", que vai sair no Brasil (quando sair) como "Breve Romance de Sonho".
Mas, na verdade, o verdadeiro tema de Kubrick é o que está encoberto no original. São as digressões de Schnitzler, o autor da valsa amorosa (escreveu o livro que inspirou Conflitos de Amor e sua refilmagem, A Ronda do Amor), sobre sexo e morte, sobre uma sociedade que cultiva a alienação e a aparência. Difícil imaginar transcriação mais perfeita. Um personagem apenas referido na trama de Schnitzler ganha importância fundamental na versão de Kubrick. Pode-se mesmo dizer que a essência do filme, o motivo por que Kubrick quis fazê-lo, está no diálogo entre Bill, o personagem de Tom Cruise, e Ziegler, interpretado pelo diretor Sydney Pollack.
Nada mais empobrecedor do que resumir "De Olhos bem Fechados" à oposição entre um adultério imaginado e outro perseguido, mas não concretizado. Isto está no filme, mas é secundário, senão supérfluo. O tema é, como sempre em Kubrick, a dissolução da palavra como único elo que une os homens. É o sexo e a morte, como se Kubrick já pressentisse que esse seria seu derradeiro filme. Seria motivo de indagação curiosa, mas um tanto inconsistente, tergiversar sobre os rumos aonde poderia chegar o cinema de Kubrick após "De Olhos bem Fechados". O que ele poderia fazer, depois de uma obra tão conclusiva? Schnitzler foi contemporâneo de Freud. Realiza uma psicanálise do desejo.
Kubrick incorpora o espírito de Freud e Schnitzler ao seu relato, mas vai além. Fez um filme que também trata da linguagem, como sempre. Atormentado pela traição imaginária da mulher, Bill mergulha na noite de Nova York vivendo experiências obsessivas, mas que nunca chegam a se concretizar. Ao cabo de uma longa noite de loucuras, ele descobre um assassinato, ou o que lhe parece um assassinato, que teria sido cometido numa orgia à qual conseguiu ser admitido de forma fraudulenta. Ziegler fazia parte do grupo de mascarados que Bill responsabiliza por uma morte. Ziegler diz que não houve crime algum. O que é isso, pergunta Bill, uma charada? É a essência do filme. Testamento - Kubrick usa Ziegler para dizer que não se trata de nenhuma charada. Alguns críticos consideram o filme decepcionante porque Kubrick, deixando claro que não se trata de uma charada, estava tornando explícito o que Schnitzler deixa subentendido e até volátil. Mas Kubrick, e é isto que confere a "De Olhos bem Fechados" o caráter de um testamento, queria mesmo ser explícito, sem abdicar da sutileza. Não por acaso, convocou uma dupla pop, como Tom Cruise e sua mulher, Nicole Kidman, para o par principal.
Não é porque eles são fake ou recorreram a uma união de fachada para disfarçar as respectivas tendências ao homossexualismo, como dizem as más línguas. Kubrick foi generoso com eles. Presenteou a dupla com os maiores papéis de suas carreiras. Em discussão está o próprio conceito de realidade. Kubrick fez um filme sobre uma sociedade que se refugia no sonho para fugir à realidade. A orgia é uma válvula de escape e o adultério sonhado é apenas mais uma fuga, mas têm, sobre o personagem de Bill, o efeito devastador de uma bomba para que ele descubra não apenas o vazio de sua vida, mas da própria sociedade em que vive.
Família, casamento, tudo é colocado em xeque. E em todas as etapas do caminho o personagem se defronta com a idéia da morte. É como se Kubrick quisesse dizer que sexo e morte são as libertações possíveis num mundo asfixiante. Kubrick já foi chamado de Kant do cinema. Como o filósofo, era obcecado por perguntas para as quais não existem respostas, mas que ele nunca deixou de se formular: quem somos, de onde viemos, para onde vamos? Kubrick buscou resposta até na ficção científica para essas interrogações. Volta a formulá-las. Tudo envolto na embalagem de um grande cinema, como só os maiores - e Kubrick foi um deles - sabem fazer.
Música, fotografia, iluminação, movimentos de câmera, edição, é tudo brilhante. Para fãs do diretor, "De Olhos bem Fechados" pode ser entendido como uma obra de síntese. E não apenas porque Kubrick, às vezes, dê a impressão de autocitar-se. Aquele recepcionista que se atira para Bill (e a platéia acha graça dos seus trejeitos gays) na verdade parece saído do hotel de "O Iluminado". A palavra é um elemento decisivo: o que se diz, o que se cala, o que as palavras deixam subentendido. E o tema do olho é novamente decisivo. Kubrick já fez um filme sobre um olho que controla tudo (o de Hal em 2001, uma Odisséia no Espaço), sobre olhos que não querem ou não podem se fechar (A Laranja Mecânica). Aqui, o olho já está no título original - olhos escancaradamente fechados. Os olhos de uma sociedade que se recusa a enxergar.
É um grande filme, de um grande artista. Amargo e triste
o melhor do ano, com poucas chances de que venha a surgir outro tão bom.

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