São Paulo, 02 (AE) - A sequência inicial do último filme dirigido por Stanley Kubrick, "De Olhos bem Fechados", mostra Nicole Kidman nua. Emancipada, moderna, veste-se para uma festa natalina na casa de um paciente do marido, um jovem e bem-sucedido médico interpretado por Tom Cruise. Reclama que não recebe dele a mesma atenção de antes. Tudo leva o espectador a esperar dela uma reação agressiva - e de Kubrick, uma frenética sequência erótica que justifique a escolha de Schnitzler como ponto de partida. Subitamente, a tela fica negra.
Compreensível. Sexo e morte são irmãos siameses na literatura do austríaco. Kubrick apenas reforça um drama feito de obsessão tanatológica. Na literatura de Schnitzler, a indeterminação é o traço fundamental de ambíguos personagens que vivem numa zona intermediária entre realidade e fantasia. Criados num mundo de aparências, eles ignoram que existam apenas dois caminhos para a estrada real, justamente o êxtase sexual e a morte, o que vem a dar praticamente no mesmo quando se fala de Schnitzler. As duas experiências - reais - só admitem olhos bem fechados. O resto é ilusão.
Assim, quem esperava uma peça de escândalo sexual é surpreendido com o testamento amargo de um morto - Kubrick, no caso. Por que Kubrick escolheu Schnitzler, escritor e médico que antecipou algumas teorias psicanalíticas? Poucos ousariam ensaiar uma resposta, mas não deixa de ser uma amarga coincidência que a "Traumnovelle" de Schnitzler tenha inspirado um filme, a mais escura das ilusões, anunciando a morte real de Kubrick. Para ser fiel ao escritor, deveria ter feito um filme em negro, porque não existe, para Schnitzler, solidariedade entre os homens.
O caminho para baixo cada um de nós tem de percorrê-lo sozinho, já dizia. Se a vida não passa, então, de uma dança macabra, nada mais justo que Kubrick gaste a eternidade para filmar uma sequência aparentemente cafona e artificial, a célebre orgia na misteriosa mansão, subvertida na versão americana. A senha para o ingresso à casa do sexo passa pelo título da única ópera de Beethoven, "Fidelio", em que uma mulher, Leonora, deve se travestir para entrar numa prisão e salvar o marido, tido como morto. Metáfora exemplar. Também o médico do filme de Kubrick deve colocar uma fantasia para ter uma experiência real de sexo anônimo, que aliene seu corpo e o transforme em nada. Ou seja, num morto.
Numa perturbadora sequência, aliás, será o mesmo Tom Cruise a reconhecer na face de uma prostituta (supostamente morta em seu lugar) o espelho de sua degeneração, de sua miséria material. Vale como monólogo interior, que, aliás, não foi inventado por James Joyce, mas por Schnitzler, em "Tenente Gustl". A exemplo desse oficial do Exército austríaco, que tem de enfrentar um duelo, mas prefere pensar em suicídio para esquecer, paradoxalmente, o medo da morte, Cruise olha a morta para se livrar do mesmo pavor.
De certo modo, o filme de Kubrick tem mais a ver com "Der Gruene Kakadu" do que com "Traumnovelle". Na taverna do primeiro texto, a aristocracia parisiense vive suas últimas horas, em 1789, ouvindo atores fingindo-se de criminosos e praticando crimes reais. Em "Traumnovelle", um casal, Fridolin e Albertine, vive suas aventuras sensuais, no plano real e imaginário, durante uma única noite, trocando de registro. No filme, Nicole sonha com um amante enquanto Cruise se vinga do adultério fantasioso com uma traição real.
Em ambos os casos, o ato traduz a conquista de um mundo simbólico que afasta o médico da realidade. É da sua negação que nasce o mundo de fantasia agonizante mostrado por Kubrick - o das drogas, da prostituição e do sexo. Como Schnitzler, ele morreu não como um "moralista desiludido", mas com a sensação que existe algo errado nessa matéria de que são feitos os nossos sonhos.

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