O mineiro Wander Piroli é um daqueles casos típicos de bons escritores brasileiros pouco conhecidos dos leitores ou simplesmente esquecidos pelo mercado editorial. Autor de uma obra única dentro da história da literatura brasileira da segunda metade do século 20, suas narrativas promovem a união entre realidade e sensibilidade.
A editora Cosac Naify começou recentemente a reeditar a obra de Wander Piroli. No final de 2014 lançou a novela infantojuvenil inédita "Três Menos Um é Igual a Sete". Agora coloca nas livrarias, com ilustrações de Lelis, outras duas novelas, "O Menino e o Pinto do Menino" e "Os Rios Morrem de Sede", os livros mais conhecidos do escritor.
Nascido em Belo Horizonte, em 1931, Piroli teve uma trajetória parecida e produziu uma literatura semelhante à do escritor paulista João Antônio (1937 – 1996). Nascido numa família de imigrantes italianos operários, frequentou o bairro boêmio de Lagoinha desde criança. Autodidata, ao longo da vida atuou como jornalista em quase todos os jornais de Belo Horizonte e foi um dos editores do "Suplemento Literário de Minas Gerais". Publicou seu primeiro livro, "A Mãe e o Filho da Mãe", somente com 40 anos de idade e suas histórias se espalharam pelo mundo em línguas como a búlgara e o polonesa. Faleceu em 2006, aos 75 anos.
"O Menino e o Pinto do Menino" provocou alvoroço quando publicado originalmente em 1975. O título deixou muita professora de cabelo em pé, mas o conteúdo conquistou os leitores e hoje é considerado um marco na literatura por inserir de maneira decisiva o realismo na literatura infantojuvenil brasileira.
Narra a história de Bumba, um garoto que ganha um pintinho na escola. O que para ele seria algo maravilhoso, cuidar de um filhote de galinha, torna-se um grande problema. Pela fragilidade do filhote, o pintinho acaba padecendo e o menino tem seu primeiro contato com o apego afetivo e com a morte.
"Os Rios Morrem de Sede", publicado originalmente em 1976, é uma da obras brasileiras pioneiras na temática ecológica. Traz a história de um pai que leva, pela primeira vez, o filho para uma pescaria. O garoto é o mesmo Bumba, personagem de "O Menino e o Pinto do Menino".
A experiência que o pai deseja oferecer ao filho é a mesma que seu próprio pai ofereceu a ele quatro décadas antes. O mesmo jeito de programar a pescaria, a mesma maneira de arrumar a tralha, o mesmo lanche, o mesmo rio, o mesmo modo de chegar ao local, o mesmo ritual com as iscas.
O que o pai se esquece é que tudo mudou com os anos. O rio quando foi pescar com o pai, era cercado de árvores e repleto de peixes. Agora, o mesmo rio em que vai pescar com o filho, é um descampado com água fedorenta sem peixe vivo. A frustração colossal é de arrancar lágrimas de pedras. A dor do garoto frente à realidade é relativamente pequena diante da dor ainda maior do pai. O pai, na verdade, está tentando realizar a transição simbólica da velha condição de filho para a nova condição de pai. E o resultado não é o paraíso.
Nas histórias para crianças de Wander Piroli não há um pingo de fantasia, nenhuma gota de magia. Há a desconcertante experiência das coisas como elas realmente são. O realismo aparece com as cores e formas que possui.
Apesar de "O Menino e o Pinto do Menino" e "Os Rios Morrem de Sede" retratarem a experiência do garoto, do filho, o foco se desloca para retratar a experiência do pai, do adulto, diante da convivência com a criança. A dor do filho está vinculada à dor do pai, e a dor do pai está vinculada à dor do filho. As duas dores se entrelaçam para enfrentar a existência da melhor maneira possível.
Um dos grandes méritos da literatura de Wander Piroli é apresentar a vida a partir de dois elementos que a realidade carrega simultaneamente: crueldade e a sensibilidade. Assim como a realidade não seria condescendente em relação à fantasia, a sensibilidade não seria condescendente em relação à crueldade.


Fragmento


- O que foi querido?
- Nada.
- Eu sei o que você está pensando.
O homem demora um pouco para falar.
- Pouca gente sabe o que isso significa, nega. Quando via o papai sentado com o embornal na sala, não conseguia dormir. Era uma coisa que mexia dentro da gente. E até hoje ainda mexe. Puxa vida, se mexe!
- Eu sei.
- É uma coisa, nega, que o tempo não apaga.
- Eu achava que vocês não deviam ir pra lá – observou a mulher.
- Tenho de ir.
- Deixe então o Bumba.
- Eu esperei ele crescer, nega. Ele precisa ir. Ele vai comigo como se eu tivesse indo com papai e nada tivesse mudado.
- Você sabe que está tudo mudado. Você mesmo disse que até o rio está acabando.
- Pois é por isso mesmo que nós vamos.
- Não entendo.
- Você sabe, nega: eu sou o Bumba, Bumba sou eu. Como papai então era eu, e agora eu sou ele.

(De "Os Rios Morrem de Sede", de Wander Piroli)


Imagem ilustrativa da imagem - LEITURA - Dores de pai, dores de filho


SERVIÇO
"Os Rios Morrem
de Sede"
Autor – Wander Piroli
Ilustrações – Lelis
Editora – Cosac Naify
Páginas – 48
Quanto – R$ 29,90


Imagem ilustrativa da imagem - LEITURA - Dores de pai, dores de filho


SERVIÇO
"O Menino e o Pinto
do Menino"
Autor – Wander Piroli
Ilustrações – Lelis
Editora – Cosac Naify
Páginas – 48
Quanto – R$ 29,90

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