- LEITURA - A suprema arte da lorota
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 23 de dezembro de 2014
Marcos Losnak <br>Especial para a Folha2 
Existe aquele mentiroso clássico. Aquela figura que não se contenta com a verdade da realidade palpável e inventa um novo mundo. Não estamos falando da mentira destruidora e usurpadora de poder, mas da simples e inofensiva lorota.
Popularmente são os pescadores os maiores mentirosos do mundo, o sujeito que sempre aumenta o tamanho do peixe fisgado. Mas tudo indica que, na realidade, os grandes mentirosos da humanidade são os militares.
A prova cabal disso está na pele do barão militar alemão Karl Friedrich Hieronymos von Münchhausen (1790 1797). Toda vez que voltava de uma guerra, reuniam amigos e familiares para contar coisas que viu e viveu. Completamente alheio à veracidade dos fatos, inventava as histórias mais surpreendentes, carregadas de humor e fantasia.
Entre aqueles que ouviam suas narrativas, estava o bibliotecário Rudolf Erich Raspe, que resolveu colocar no papel as histórias do barão. O livro, intitulado "As Aventuras do Barão de Munchausen", foi publicado originalmente em 1785, em Londres. O que seria um livro despretensioso se converteu num dos grandes clássicos da literatura universal.
A editora Cosac Naify está lançando uma edição primorosa de "As Surpreendentes Aventuras do Barão de Munchausen" com ilustrações de Rafael Coutinho. Além de primorosa, também se trata da melhor edição e mais completa do clássico publicada no Brasil, Além dos capítulos originalmente escritos por Rudof Erich Raspe, traz outros capítulos que foram incorporados ao livro ao longo do tempo. De autoria desconhecida, são histórias atribuídas a fãs anônimos das lorotas do Barão de Munchausen que vestiram a pele do militar.
O Barão de Munchausen é eterno viajante. Tanto no sentido espacial, percorrendo regiões do mundo inteiro, como no sentido de fértil imaginação. Além de lendárias batalhas, histórias de pescaria e caçadas recheiam a primeira parte das narrativas do barão. Coisas como matar 50 pares de patos com um único tiro, ou virar uma raposa viva do avesso utilizando apenas uma das mãos. A história mais loroteira está no dia em que o Barão está caçando na companhia de uma cachorra prenha e surge no meio do caminho uma lebre igualmente prenhe. Na perseguição, tipo gato e rato, ambas dão a luz correndo e os recém nascidos passam a fazer parte da perseguição.
Na segunda parte das narrativas o tema de caçada e pescaria cede lugar a contextos mais abrangentes. Coisas como chegar à Lua levado por vendaval, ou a construção de uma ponte ligando o centro da África à Inglaterra. As viagens ganham doses extras de imaginação, com ilhas formadas de queijo, mares de leite e tempestades de pães de mel. E até mesmo uma batalha contra Dom Quixote.
Sempre existe aquele mentiroso clássico. No caso do Barão de Munchausen, não se trata exatamente de lorotas. Trata-se de histórias que só fazem sentido se ampliadas pela imaginação, imersa na ficção.

Serviço:
"As Surpreendentes Aventuras do Barão de Munchausen em XXXIV Capítulos"
Autor - Rudolf Erich Raspe
Ilustrações Rafael Coutinho
Editora Cosac Naify
Tradução Claudio Alves Marcondes
Páginas 208 (capa dura)
Quanto R$ 89,90
Tudo nesse mundo tem dimensões extraordinárias! Uma mosca comum ali é muito maior do que qualquer de nossas ovelhas. Quando travam combates, suas armas principais são os rabanetes, usados como dardos, os quais se mostram fatais ao ferir o adversário. Para proteger-se, usam escudos de cogumelos e, no ataque, pontas de aspargos afiadas como dardos (sempre que não é a época do rabanete). Alguns nativos da estrela Cão Maior podem ser vistos perambulando por lá, atraídos pela possibilidade de comércio; suas aparências são como de imensos mastins, com os olhos próximos da parte inferior ou da ponta dos focinhos; e, como não têm pálpebras, usam a extremidade da língua para cobrir os olhos quando querem adormecer; em geral, têm nada menos do que vinte e seis pés de altura. Já os nativos da Lua, nenhum deles tem menos de trinta e seis de estatura: não são chamados de seres humanos, e sim de animais cozinheiros, pois todos preparam os alimentos no fogo, como nós, mas, por outro lado, não desperdiçam tempo com as refeições, visto que usam uma abertura no lado esquerdo do corpo para, de uma só vez, levar no estômago todos os alimentos, fechando-a em seguida até o mesmo dia do mês seguinte. O fato é que nunca se satisfazem com alimentos mais do que doze vezes por ano, ou em apenas uma ocasião por mês. E todos, com exceção dos glutões e dos gourmets, devem preferia tal método ao nosso.
("As Surpreendentes Aventuras do Barão de Munchausen")


