A doença não está apenas nos prognósticos e diagnósticos que brotam das bocas dos médicos. Não está apenas no corpo ou na mente do enfermo. Abrange tudo aquilo que é próximo ao doente, em todas as direções, lugares ou buracos.
A escritora chilena Lina Meruane faz da doença, que expande seus dedos além do doente, como o grande tema de sua literatura. Seu primeiro romance publicado no Brasil, "Sangue no Olho", narra a trajetória de uma mulher diante da fatal possibilidade de perder a visão devido à diabete.
Lançado pela editora Cosac Naify, "Sangue no Olho" traz o relato de Lucina, uma jovem chilena que vive em Nova York como professora de literatura. Um belo dia, por ser diabética, tem hemorragia nos dois olhos e se depara com um novo elemento em sua vida: a possibilidade de ficar cega.
Com a visão comprometida, completamente embaçada, Lucina vaga entre exames e consultas médicas com a esperança de que uma cirurgia reverta a situação. A relação com as pessoas próximas (marido, mãe, pai, irmãos, amigas) torna-se cada vez mais delicada como mais delicada torna-se seu comprometimento visual. Todos os fantasmas do passado saem do porão para arrastar suas correntes do andar de cima.
Em pouco tempo a personagem percebe que a esperança da cura pode ser uma falácia. Vivendo uma cegueira provisória que pode se tornar permanente, chega à conclusão de que "à medida que o mundo foi ficando negro o que lhe pertencia também ficou às escuras". A escuridão particular se prolonga para a escuridão de tudo a sua volta (situações, pessoas, sensações, fatos, sonhos, amores, sentimentos e tudo mais).
Essa escuridão que parte da visão para se prolongar e incorporar o mundo faz parte da estrutura narrativa desenvolvida por Lina Meruane. Há uma tensão nas palavras que ganha impulso ao longo das páginas. O aumento da tensão narrativa reflete a tensão da protagonista em sua luta contra a cegueira e a fatal constatação de que a vitória, quem sabe, ficará nos braços da doença. O próprio projeto gráfico da edição brasileira segue nesse caminho com as páginas escurecendo lentamente.
Num plano simultâneo, aparece a discussão sobre as formas que a ideia social da superioridade da saúde coloca a doença como elemento de inferioridade. Não se trata de uma discussão sobre a ditadura da saúde do mundo contemporâneo, mas de como as pessoas se alteram diante da doença. Uma alteração que coloca o doente como ser inferior por não possuir a riqueza da saúde.
A batalha da personagem está em lutar contra essa ideia de inferioridade. Uma busca de paz no seio da intranquilidade que encontra espaço para expansão justamente na reconstrução da memória. A fúria do sangue nos olhos assume a forma de batalha contra uma situação que não pode ser controlada, que existe independentemente do desejo pessoal. A fragilidade torna-se um império sem ouro, castelos, reis ou exércitos.
Em "Sangue no Olho" as margens da doença procuram estabelecer um diálogo com as margens do amor. Como todos sabem, amar na saúde é completamente diferente de amar na doença. São outras exigências, são outros mecanismos operantes na razão dos sentimentos. A narrativa de Lina Meruane descarta essa razão e segue em direção a algo que as palavras não comportam dizer, apenas supor. A verdadeira questão está em "como" amar na doença.
Nascida na cidade de Santiago do Chile, em 1970, Lina Meruane é considerada uma das vozes de destaque (ao lado de nomes como Alejandra Costamagna e Alejandro Zambra) da literatura chilena contemporânea. Assim como dezenas de outros escritores de sua geração, deixou o país natal para viver em países como México e Espanha. Atualmente reside nos Estados Unidos, onde atua como professora de cultura e literatura latino-americana na Universidade de Nova York.

Imagem ilustrativa da imagem - LEITURA - A paz dos intranquilos
| Foto: Reprodução



Serviço
"Sangue no Olho"
Autor – Lina Meruane
Editora – Cosac Naify
Tradução – Josely Vianna Baptista
Páginas – 192
Quanto – R$ 34,90


Fragmento



Finalmente desliza pelos lábios a palavra filha, e depois outra sílaba afônica, sem letras, como se minha mãe fosse tão pobre que não tivesse nem sons para pronunciar. Mas ela nunca foi tão pobre a ponto de ficar sem fala, e diz filha, só queria. Me ajudar, digo, terminando a frase dela. Me ajudar a fazer as coisas como os outros fariam. Como eu mesma fazia antes. Você não entende?, continuei, com herdada insolência. Não sei se vou me recuperar. Preciso aprender a estar cega. Não está me ajudando. Mas, filha, murmura minha mãe como se à sombra de si mesma, sabendo que tudo o que disser poderá ser usado contra ela. Tua ajuda me invalida, repito, em certa medida, culpada. Ela recebe minhas pedradas como uma mártir e começa a chorar. É um choro imprevisto e voltado para dentro, um choro tenso que abarca todas as misérias da vida que lhe dei. Levanto do chão e me aproximo. Não sinto nada e é melhor não sentir, melhor simplesmente deixar que meus dedos acariciem, suave, seu rosto, seu cabelo despenteado.

(Fragmento de "Sangue no Olho", de Lina Meruane)


mockup