- LEITURA - A melancolia dos olhos felizes
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 07 de julho de 2015
Marcos Losnak<br> Especial para a Folha2 
A densa neblina que cobre os olhos mais felizes. A vasta cerração que encobre as mais belas paisagens. Entre olhos e paisagens, o desconhecido pode ser uma bruma que altera o mundo. Uma névoa que tira a exatidão das coisas.
Essa percepção atravessa toda a narrativa de "A Estepe", novela do escritor russo Anton Tchekhov (1860 1904) que acaba de ser lançada pela editora Penguin. A obra narra a história de um garoto que, para estudar, deixa a propriedade rural onde nasceu e segue para uma grande cidade.
Anton Tchekhov escreveu "A Estepe" em 1888. Tinha 28 anos, havia recém terminado a faculdade de medicina. Foi sua primeira novela, publicada originalmente num periódico literário do norte da Rússia. O texto é considerado a primeira grande narrativa daquele que hoje é considerado o maior contista da literatura russa.
Nessa época, Tchekhov ganhava a vida escrevendo textos ficcionais e humorísticos para jornais e revistas. Começou a exercer a medicina somente com 30 anos de idade, quando se tornou médico rural, atividade que exerceu junto com a literatura até falecer, em 1904. Segundo a lenda, considerava a medicina uma esposa e a literatura uma amante.
"A Estepe" narra a jornada de Iegóruchka, um garoto que viaja na companhia de um padre e um comerciante para a cidade onde deve entrar no mundo dos estudos. Segue acompanhando uma caravana de carroças carregadas de lã bruta que devem ser comercializadas na cidade grande.
Durante a viagem, que se prolonga ao longo dos dias, Iegóruchka entra em contato com um mundo desconhecido. Paisagens novas, pessoas diferentes, lugares estranhos, conversas surpresas, situações nunca vistas. Um novo e desconhecido mundo se abre diante de seus olhos, no momento em que acaba de perder o aconchego familiar. No instante em que deve viver em um lugar em que não possui nenhuma espécie de vínculo.
O grande mérito de Anton Tchekhov está em inserir numa mesma narrativa a visão do narrador observador e a visão do próprio personagem Iegóruchka. Ao mesmo tempo em que apresenta uma novela onde o processo da viagem é o verdadeiro enredo, também apresenta um abrangente panorama do contexto.
Fazendo uso de uma narrativa econômica, o escritor apresenta uma descrição da paisagem, dos animais, das plantas e do clima e todo o trajeto da viagem pela estepe. Igualmente apresenta tipos de pessoas, atividades econômicas, relações sociais, credos e religiões diversas, estratos sociais, fantasmas históricos, mudanças comportamentais e muitos outros elementos. O universo desconhecido com que o garoto entra em contato é na verdade um retrato da humanidade. E um retrato da Rússia do século 19.
Em uma das partes mais sedutoras de "A Estepe", Tchekhov narra episódios em que, durante a viagem, Iegóruchka é deixado aos cuidados apenas dos tropeiros. Ao longo de dias e noites, o garoto passa a viver com figuras singulares e toscas, mujiques que perderam tudo, homens de todos os tipos que tiveram um passado feliz e enfrentam um presente melancólico.
Convivendo com esses homens, Iegóruchka experimenta uma nova construção de realidade, de sensações e de sentimentos. O mundo desconhecido lança suas armadilhas para uma nova relação com a existência. E as figuras humanas são capazes de apresentar infindáveis sustos quanto a natureza nas garras das intempéries.
Quando o garoto chega ao final da viagem, cai em outro mundo igualmente desconhecido. E a melancolia dos olhos felizes novamente é envolvida pela névoa. Então começa a entender que, quem sabe, o mundo não espera que as crianças sejam felizes. O mundo deseja que as crianças sejam adultas.
"Na hora em que Iegóruchka olhava para os rostos adormecidos, de repente ouviu uma canção suave. Em algum lugar não muito próximo, uma mulher cantava, mas era difícil precisar exatamente onde e de que lado. A canção suave, arrastada e melancólica parecia um pranto e mal dava para ouvi-la; soava ora da direita, ora da esquerda, ora do alto, ora debaixo da terra, como se acima da estepe revoasse e cantasse um espírito invisível. Iegóruchka olhava em volta e não entendia de onde vinha aquela estranha canção; depois, quando a pôde escutar melhor, teve a impressão de que era o capim que cantava; já quase morto, já perdido, mas de modo lastimoso e sincero, o capim tentava com aquela canção sem palavras convencer alguém de que não tinha culpa de nada, de que o sol o havia queimado sem motivo; o capim afirmava que tinha uma fervorosa vontade de viver, que ainda era jovem e que seria bonito, se não fosse o calor brutal e a seca; o capim não tinha culpa e, no entanto, pedia perdão a alguém e jurava que sofria de maneira insuportável, entristecido e com pena de si mesmo..."
SERVIÇO
"A Estepe História de Uma Viagem"
Autor Anton Tchekhov
Editora Penguin
Tradução Rubens Figueiredo
Páginas 140
Quanto R$ 24,90


