- LEITURA - A crise dos homens da lei
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 30 de dezembro de 2014
Marcos Losnak<br> Especial para a Folha2 
Caso 1. Um jovem com leucemia está hospitalizado. Para sobreviver, precisa se submeter a uma transfusão de sangue. Os pais, adeptos da religião Testemunhas de Jeová, não autorizam tal procedimento por considerar que, se o filho morrer, trata-se de uma escolha de Deus. O hospital entra com um processo jurídico para obter autorização de realizar o tratamento.
Caso 2. Num processo de divórcio, pai e mãe, ambos seguidores da religião judaica, disputam a guarda de duas filhas. As divergências recaem sobre a educação das meninas. O pai exige que as filhas cursem uma escola religiosa para serem educadas como mulheres que vivam apenas para a família. A mãe defende que as filhas devem frequentar uma escola comum e tenham uma profissão.
Caso 3. Recém-nascidos siameses precisam passar por uma cirurgia para que um deles sobreviva. Se o procedimento não for realizado, os dois estão condenados à morte em poucos meses. Os pais das crianças, adeptos da religião islâmica, se recusam a autorizar separação dos corpos por considerar trata-se dos desígnios de Deus. Os médicos entram com um processo para salvar uma das crianças.
Esses três casos jurídicos estão sob a mesa da juíza Fiona Maye, titular da Vara da Família do Tribunal Superior de Londres. O que os casos possuem em comum está claramente vinculado ao fundamentalismo religioso que cada vez mais se manifesta nos corredores do sistema judiciário. Esse é o tema do novo romance do escritor inglês Ian McEwan, "A Balada de Adam Henry", lançado pela editora Companhia das Letras.
A personagem principal, Fiona, possui grande reputação pela ética de justiça em que estuda e emite suas sentenças. Profundamente dedicada ao trabalho, ao mesmo tempo em que precisa resolver os três processos, vive uma crise conjugal com o marido com quem está casada há décadas. Tudo porque o marido começa a reclamar sobre o tempo em que ela se dedica ao trabalho e o tempo em que ela se dedica a ele, principalmente na cama. E avisa que, apesar de amá-la, está decidido a viver uma relação extraconjugal com uma mulher mais nova que acaba de conhecer.
A crise de Fiona se amplia quando ela, no meio do julgamento em que deve decidir o destino do jovem Adam Henry que precisa de uma rápida transfusão de sangue para sobreviver, faz a opção de não apenas ler os autos, mas de visitar pessoalmente o garoto no hospital. Ouvir de sua própria boca os motivos que o fazem optar pela morte prematura em nome de um preceito religioso.
Essa visita, uma prática rara entre os juízes, transforma as posições existenciais de Fiona. Ela vê um rapaz sedento de vida defendendo a morte em nome dos poucos preceitos a que teve acesso, os preceitos religiosos dos pais. Fazendo uso de seu poder estatal de juíza, Fiona autoriza a transfusão de sangue. A grande sacada da narrativa de Ian McEwan está em complicar as coisas. Adam, ganhando uma nova vida provinda de uma decisão que não foi sua nem de seus pais, elege a juíza como a gestora de seu futuro, de seu deslumbramento perante a vida.
"A Balada de Adam Henry" é um dos melhores romances de Ian McEwan, um dos grandes nomes da literatura inglesa da atualidade. O uso de doses equivalentes de razão e sentimento transforma a narrativa em revelações surpreendentes onde a ambivalência entre justiça dos homens e a justiça dos deuses cede lugar a algo maior: a ampliação da mente para dar um sentido para a vida.
A narrativa de "A Balada de Adam Henry" abarca temas complexos sem superficialidade. A simples liberdade de escolhas e a escolha realizada com mais cuidado dentro de um repertório mais amplo de abordagens. O Direito como uma serpente venenosa e as funções do judiciário como uma ocupação de executivos da justiça. Uma história de amor encarada pela ótica do início da velhice - aquele momento em que o amor deixa de ser uma determinação hormonal para se constituir em algo mais abrangente. Tudo aparece lado a lado. Um romance que abre, de maneira inteligente, as portas das mais variadas reflexões. Com razão e poesia.

Fragmento:
No outro lado da cidade, um adolescente confrontava a morte em razão de suas crenças, ou da de seus pais. A missão dela não consistia em salvá-lo, e sim decidir o que era razoável e legal. Gostaria de ver o rapaz, se afastar por uma ou duas horas do pântano doméstico e do tribunal, viajar, mergulhar nas complexidades, formular um julgamento baseado em suas observações. As crenças dos pais poderiam ser uma afirmação das crenças do filho, ou uma sentença de morte que ele não ousa desafiar. Atualmente investigar por conta própria era raríssimo. Lá pela década de 1980, um magistrado ainda podia colocar o adolescente sob tutela da corte e encontrar-se com ele em seu gabinete, no hospital ou em casa. Sabe-se lá como, um ideal nobre havia sobrevivido até os tempos modernos, amassado e enferrujado como uma velha armadura. Os juízes representavam o monarca e, durante séculos, haviam desempenhado o papel de guardiões das crianças da nação. Nos dias de hoje, assistentes sociais do serviço de apoio e aconselhamento da Vara da Família faziam isso e apresentavam um relatório. O velho sistema, vagaroso e ineficiente, preservava o toque humano. Agora, menos atrasos, mais formulários com quadradinhos para serem assinalados, mas coisa a aceitar na base da confiança. A vida das crianças ficava guardada nas memórias dos computadores, com bastante precisão mas com muito menos bondade.
("A Balada de Adam Henry", de Ian McEwan)


