Na quarta-feira choveu em Brasília. Alguém disse que era o país chorando a morte de Oscar Niemeyer. Não acredito em tudo que ouço, mas acredito na poesia. Então, aquela chuva pode ter sido sim a metáfora de uma despedida.
Também não duvide Niemeyer, que aquela cidade árida do cerrado chorou por você. Na verdade, choveu em todo Brasil quando chegou a notícia de sua morte. Chegou de noite como um pranto solene e, em menos de meia hora, havia fotos de suas edificações em todas as redes sociais, suas falas em boletins de rádio e televisão. Arquitetos e não arquitetos desenhavam homenagens com o que tinham nas mãos: imagens, fragmentos de entrevistas, uma coletânea de frases suas, algumas que bem merecem ser reproduzidas aqui por darem a dimensão do homem que vivia dentro do gênio. Se há uma coisa que sempre admirei em você é seu humanismo, a quase utopia de reivindicar a igualdade num mundo injusto, como um velho camarada, dos bons, destes cada vez mais raros.
Sua utopia atravessou mais de um século, nunca vi idealismo assim tão teimoso, convincente e, ainda por cima, comunista. Sua utopia nasceu no seu dedo de criança que descrevia no ar o sonho de construir monumentos e prédios, no fundo você queria mesmo reconstruir o mundo.
Num depoimento, você disse que sua mãe quando te via assim, com o dedo compondo formas invisíveis no espaço, perguntava: "O que você está fazendo, menino?" E vinha a resposta: "Desenhando", deixando para depois mais um exercício maluco: você completava o desenho no dia seguinte, a prancheta já estava na sua cabeça e ninguém sabia.
Então, veio sua formação de arquiteto e sua criação comparada à música de Tom Jobim. Só posso dizer que vocês dois compreenderam o Brasil como poucos. O Brasil das montanhas e das curvas, o Brasil das mulheres, das araras, dos céus imensos e dos voos.
Quando vi pela primeira vez suas construções em Brasília, pensei em aves variadas, garças pernaltas, asas lânguidas, dedos femininos, cinturas desembocando em quadris, formas circulares de discos-voadores. Um carnaval elegante de euforias. Seu trabalho não é só arte, é a celebração de um projeto reconstrutivo, de um país novo, que ganhou outra cara com seus concretos suaves.
Daqui para a frente, não tenho mais nada a dizer. Quase todos os brasileiros conhecem de cor sua poesia concreta e fica redundante repetir a graça de seus projetos, a ênfase de sua criação. Você já disse tudo, numa sintaxe de cimento, água e vidro espalhada pelo mundo. Suas frases são longas e tem o cosmopolitismo de línguas variadas, como um destes deuses que nos ensinam outros alfabetos. O seu se inscreve na pedra e, ainda por cima, voa.
Cumprindo a promessa feita logo ali em cima, te deixo a palavra para falar por si mesmo. Fala Niemeyer, na sua língua de curvas, sobre o seu sonho grande, seu sonho xamânico que se repete raramente com o mesmo vigor. Daqui a cem anos talvez tenhamos por aqui outro Niemeyer. Até lá, vamos ouvir seus ecos enquanto o Brasil ainda chora. Por favor, fale de sua arquitetura: "O que me atrai é a curva livre e sensual, a curva que encontro nas montanhas de meu país, nas ondas do mar, no corpo da mulher preferida. De curvas é feito todo o universo, o universo curvo de Einstein".
Não vamos nos esquecer também daquilo que você disse num momento mais que poético: "A vida é um sopro". Agora, siga para seus mundos imaginados, voa.


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