A extensão rural paranaense, base histórica da assistência técnica e da difusão de conhecimento no campo, completa 70 anos em maio de 2026 como um dos pilares da transformação da agricultura do Paraná. Incorporada hoje ao IDR-PR (Instituto de Desenvolvimento Rural do Paraná), a atividade é apontada pelo presidente da instituição, Natalino Avance de Souza, como decisiva para consolidar o estado como líder nacional no VBP (Valor Bruto da Produção Agropecuária) e referência internacional em produtividade.

Porém, para ele, a data vai além do marco institucional. É um momento de reflexão sobre o futuro do campo, especialmente diante do desafio de garantir renda, qualidade de vida e permanência das famílias na atividade rural. “Se o agricultor não tiver renda, ele deixa o campo. E, se não tiver qualidade de vida, o jovem também não fica”, resume Avance, que acumula 48 anos de trajetória na extensão rural paranaense, esteve na cidade para participar da ExpoLondrina e visitou a Folha de Londrina.

Assistência técnica no campo

Criada em 1956, a extensão rural no Paraná passou por diferentes estruturas até chegar ao atual modelo integrado do IDR-PR. Criado em 2019, o instituto é a junção de quatro órgãos que anteriormente atuavam de forma autônoma: Iapar (Instituto Agronômico do Paraná), Emater (Instituto Paranaense de Assistência Técnica e Extensão Rural), Codapar (Companhia de Desenvolvimento Agropecuário do Paraná) e CPRA (Centro Paranaense de Referência em Agroecologia). Para Avance, essa integração representa um salto qualitativo na capacidade de levar inovação ao campo.

Ele destaca que a combinação entre pesquisa pública, assistência técnica e crédito rural foi determinante para a evolução da agricultura estadual. “O que mudou a agricultura foi pesquisa, assistência técnica e crédito. Isso produziu o Estado que nós temos hoje”, afirma.

O resultado desse processo é um Paraná que lidera o VBP por hectare no Brasil, indicador que mede a riqueza gerada pela produção agropecuária. Segundo Avance, isso reflete não apenas condições naturais favoráveis, mas principalmente o avanço tecnológico e a capacidade de organização dos produtores.

A virada da Geada Negra

Um dos episódios mais marcantes dessa trajetória foi a Geada Negra de 1975, que devastou as lavouras de café no Norte do Estado. Estudante de agronomia à época, Avance lembra que o cenário era de luto. “Era um velório. A geada matou todos os pés de café”, recorda.

Apesar do impacto devastador, o episódio impulsionou uma profunda transformação produtiva. A partir dali, o Estado diversificou suas culturas e avançou na produção de grãos e proteínas animais. “O Paraná virou o ‘supermercado do mundo’. Mas isso veio dessa transformação”, diz.

Atualmente, além de grande produtor de soja, milho e trigo, o estado se destaca como o maior produtor nacional de proteína animal, com forte presença nas cadeias de aves, suínos, leite e peixe. Esse modelo, segundo o presidente do IDR-PR, é fundamental para gerar riqueza e distribuir renda.

Renda e permanência no campo

Apesar dos avanços, Avance alerta para um desafio central: garantir que o agricultor tenha condições de permanecer no campo com dignidade. Para isso, ele defende o conceito de “densidade de renda”, que consiste em diversificar a produção e agregar valor. “Não é só plantar soja. Soja precisa de escala. O pequeno agricultor precisa de alternativas que gerem mais renda por área”, explica.

Entre essas alternativas estão a produção de frutas, hortaliças, agroindústria familiar e turismo rural, atividades que, além de aumentar a renda, fortalecem o vínculo das famílias com o campo.

A preocupação também passa pela qualidade de vida. Infraestrutura, acesso à água, conectividade e condições de trabalho são fatores decisivos para evitar o êxodo rural, especialmente entre os jovens. “Se a vida na cidade é mais fácil e mais confortável, por que o jovem vai ficar no campo? A gente precisa melhorar isso”, afirma.

Desafios sociais e ambientais

O presidente do IDR-PR reconhece que, apesar da força do agronegócio, ainda há desigualdades importantes. Dados citados por ele indicam que cerca de 55% dos produtores paranaenses não recebem assistência técnica regular, o que gera um “distanciamento tecnológico”. “Esse é um público que precisa ser atendido. E o braço do Estado ainda é importante para isso”, diz.

Além da questão social, há desafios ambientais, como manejo inadequado do solo, escassez hídrica e problemas com deriva de agrotóxicos. Para Avance, a pesquisa pública tem papel essencial na busca por soluções sustentáveis. “A agricultura precisa voltar a produzir água, como produzia no passado. Isso passa por manejo de solo, por tecnologia e por assistência técnica”, afirma.

O papel do serviço público

Mesmo com a ampliação da atuação de cooperativas, empresas privadas e universidades, Avance defende que o serviço público de extensão rural continua sendo necessário — especialmente em regiões ou atividades onde não há interesse econômico imediato.

“O governo precisa entrar onde os outros não entram. Tem situações em que, se o Estado não colocar a mão, ninguém coloca”, avalia.

Comemorações dos 70 anos

Para marcar as sete décadas da extensão rural, o IDR-PR iniciou uma série de ações comemorativas, como o encontro nacional da Asbraer (Associação Brasileira das Entidades de Assistência Técnica e Extensão Rural), que reuniu dirigentes de todo o país no Paraná.

Além disso, a instituição está promovendo ações em exposições agropecuárias, com destaque para a presença institucional e atividades técnicas que ressaltam a importância da extensão rural.

O ponto alto das comemorações está previsto para o fim de maio e início de junho, em Curitiba, com um evento que deve reunir ex-dirigentes e homenagear extensionistas históricos. “Nós não temos o direito de deixar essa data passar em branco. É um reconhecimento a quem fez a diferença na vida dos agricultores”, afirma Avance.

mockup